Goiânia – No ano de 1964 era publicada uma instigante obra do semiólogo e linguista, Umberto Eco, que recebeu o inusitado título de “Apocalípticos e Integrados”. Nesse trabalho, o também filosófo, escritor e ensaísta discute as produções artísticas direcionadas à chamada cultura de massa, que no campo literário corresponderia à paraliteratura. No capítulo “O Mito do Superman”, Eco traz importante análise cultural da mitopoese (construção de mitos) que envolve o super-herói mais famoso da DC Comics e sua relação com a psicologia social como um todo.
A história do herói extraterreno já se tornou bastante popular na cultura pop. Em distante planeta, habitado por uma avançada civilização, desenrola-se um drama cósmico no sentido literal do termo. A saturação do núcleo planetário leva Krypton, nome com que o exoplaneta é conhecido, a entrar em colapso, explodindo. Um cientista, que previra o infausto acontecimento, constrói uma nave e envia seu filho recém-nascido para a Terra momentos antes da grande explosão.
Em nosso mundo, o habitante alienígena terá superpoderes em virtude da estrela amarela que ilumina o nosso sistema planetário. O cinema já produziu diversas peças narrando a história do herói kryptoniano, apresentando variações em cada versão, como é natural. A mais recente, “Homem de Aço”, de 2013, apresenta o sobrevivente daquele mundo extinto em luta com um pequeno grupo de conterrâneos – ou seria conkryptonianos? Preso em uma dimensão física paralela conhecida como Zona Fantasma, o grupo também sobrevive à morte do planeta.
Ao descobrirem que na Terra está exilado o filho de um de seus algozes, os sobreviventes se dirigem ao nosso mundo em busca de vingança e redenção, intentando modificar a estrutura geofísica da Terra para que ela se torne um novo Krytpon, o que no enredo escrito por David Samuel Goyer seria fatal para a humanidade. Ao travarem o primeiro contato com o nosso planeta, o grupo liderado pelo general Zode, que se encontra orbitando a Terra, interfere na transmissão de todos os aparelhos eletrônicos terrestres, enviando uma mensagem ficcional que se vier algum dia a tornar-se realidade será, sem dúvida, o maior acontecimento na história humana.
A mensagem dizia que não estamos sozinhos no universo. Vazada em diversas línguas terrenas, dentre as quais o português, o software de tradução kryptoniano interfere nas telas televisivas, de computadores, de tablets e de smartfones escrevendo em nosso idioma, literalmente: “Você não estão sozinhos”.
Certamente, a mensagem kryptoniana em português se trata de uma deferência e ao mesmo tempo de um descuido no contexto do filme. O público brasileiro é dos que mais prestigia as produções de filmes de super-heróis, tanto da Marvel quanto da DC Comics, as duas gigantes da criação de heróis da mitologia moderna da cultura de massa de que fala Umberto Eco em “Apocalípticos e Integrados”. Faltou, no entanto, um maior cuidado no momento do tradutor kryptoniano escrever a versão de sua mensagem em português.
VARIEDADE LINGUÍSTICA
A falha do software de tradução kryptoniano remete a um problema bastante comum no âmbito da sociolinguística: o estudo em torno das variedades, ou variantes, linguísticas. O conceito se refere às várias situações de interação linguística no contexto de uma língua. Ou seja, o idioma possui várias camadas que são a expressão comunicacional dos seus estratos sociais.
Assim, há a linguagem do dia a dia de tecidos sociais diversos, como a do meio rural, a das comunidades outrora denominadas de favelas, a linguagem específica das profissões, a linguagem distinta das diversas regiões do país, etc. Neste contexto, a sala de aula representa o espaço de interação social onde o estudante busca o domínio de uma das variedades da língua materna, que tecnicamente responde pelo nome de norma ou variante culta da língua.
Dessa forma, a antiga noção de que se ia para a escola para aprender português sofre um deslocamento conceitual. Vai-se para a escola não para aprender a língua portuguesa, mas sim a sua variedade culta. Alguém que não domina a escrita e a leitura, comunica-se normalmente em seu cotidiano, utilizando-se dos mecanismos orais da linguagem. É um falante natural da língua pátria.
De maneira semelhante, o conceito de certo e errado, do ponto de vista sociolinguístico, sofre também um deslocamento. Expressões como “nós vai”, por exemplo, em um ambiente informal não representaria necessariamente um erro comunicacional, mas sim um uso cotidiano da língua em ambiente de informalidade. Todavia, se dito em um ambiente formal em que o uso da norma culta está implícito, representaria um desvio lamentável.
O software de tradução de Krypton incorre em um desvio da norma culta adotada pelo português tanto brasileiro quanto lusitano. No contexto de verossimilhança fílmica, tratava-se de um importante momento de relação interplanetária. Portanto, devia-se respeitar a norma culta da língua. É o cuidado que o educador deve ter no espaço da sala de aula. O educando deve estar ciente de que a sua linguagem cotidiana não representa uma agressão à língua, passível de severas punições.
No entanto, não pode ignorar também, sob pena de limitações de acesso a importantes conquistas sociais e educativas, de que o domínio da norma culta representa importante dever que corresponde simetricamente ao seu direito à cidadania mediada pela educação. A complacência com o desvio da norma culta em nome do politicamente correto, quando o seu uso necessariamente está implícito ou explícito, representa, portanto, um lamentável equívoco por parte do educador.
*Gismair Martins Teixeira é doutor em Letras e Linguística pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás; professor da Seduc-GO lotado no Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte.