Tão triste amanheceu este 9 de novembro de 2021 que, a despeito de tantas notas redigidas sobre a morte do ex-governador de Goiás e ex-prefeito de Goiânia Iris Rezende, não quero que nenhuma delas seja considerada a derradeira. A minha derradeira.
Não, eu prefiro convencer minha memória de que o último texto que escrevi, pelo menos até a presente data, sobre esse que é um dos grandes líderes políticos goianos não tem nada a ver com coroa de flores, cortejo pelas ruas de Goiânia, velório no Palácio das Esmeraldas, decreto de luto oficial, enterro no Cemitério Santana.
O que ouso deixar como recordação, para mim e para quem mais se aventurar na leitura abaixo, é uma adaptação de um simples “retrato” que fiz com palavras durante a homenagem que Iris Rezende recebeu na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), no final do ano passado, em decorrência do anúncio da sua aposentadoria política.
“Intindimento” para dar e vender
Enquanto a maior autoridade goiana discursava na tribuna do Plenário, a câmera da TV Assembleia deu um close no rosto do homenageado. Até pra quem não assistiu a tudo presencialmente, era possível perceber a respiração mais ofegante do homem que, coincidentemente ou não, completa em 22 de dezembro os mesmos 87 anos da cidade que ajudou a construir quando para cá veio, novo, muito novo, aos 15 anos de idade, saído da “roça”, como costuma repetir.
“Eu tive um ‘intindimento’ desde cedo de que a minha presença na política era uma missão que Deus colocava nas minhas mãos e que, por isso, tinha que ser exemplar”, pontuou o atual prefeito, ao relatar que, em duas oportunidades, desobedeceu ao pai, que pedia para ele deixar a vida pública para trabalhar com os negócios da família.
Nesta terça-feira, muitas décadas depois desse dia, não foi Iris quem contou com detalhes causos e mais causos de histórias políticas, como faz com serenidade em coletivas de imprensa ou em eventos públicos. Pode até ter sido um pouco mais difícil, com certeza nada usual, mas esse goiano de Cristianópolis teve que assumir o papel de ouvinte. E ele ouviu de Ronaldo Caiado um momento emblemático que marcou a vida do atual governador.
De acordo com o líder do Executivo goiano, na primeira campanha em que participou ao lado de Iris, uma cena não lhe sai da cabeça. Eles estavam atrasados para um compromisso, entre uma cidade e outra, e de repente, o hoje prefeito de Goiânia pediu para o motorista parar a caminhonete em que estavam, pois tinha visto três crianças, com cerca de 3 anos, pouco vestidas, chupando mangas.
“Ele foi lá no banco de trás [do carro], pegou todo o lanche nosso, desceu da caminhonete, serviu as três crianças, voltou e continuamos a viagem. Iris me mostrou que a meta de poder era secundária a um gesto de solidariedade às pessoas mais vulneráveis”, relembrou Caiado, enquanto Iris, emocionado, acompanhava atento às palavras do orador.
Com um terno azul marinho, camisa social azul clara, gravata cinza com listras diagonais nas cores vermelha e branca e com os habituais gestos de mãos quando está diante de um microfone, Iris também revisitou algumas lembranças. “Deus me permitiu que, ao chegar aos 87 anos, vivesse momentos complexos: o regime autoritário, abusos por parte dos poderes constituídos, mas hoje vejo o Brasil equilibrado, Goiás se agigantando em todos os sentidos, e isso representa o bem-estar social”, definiu, não antes em concluir:
“Quando recebo uma homenagem dessas, com as figuras mais importantes de Goiás de todos os Poderes, nessa Casa que realmente representa o sentimento de um povo, eu agradeço a Deus por esse momento tão importante, e fico certo de que deixarei para as futuras gerações um exemplo de dedicação”.
Mas, além dos agradecimentos, para quem é perspicaz, dá para pinçar do discurso de Iris mais um ensinamento. Um conselho, talvez, para os novatos na política. “Não é porque se muda de posição que se muda o jeito de caminhar”, disse aquele que tem sabedoria, ou melhor, “intindimento para dar e vender”.
(Matéria escrita no dia em que Iris foi homenageado na Assembleia Legislativa de Goiás, em 1o de dezembro de 2020)
Carla Lacerda é jornalista, especialista em Jornalismo Literário e repórter no jornal A Redação