Li hoje no blog do jornalista Lúcio Ribeiro sobre o estudante de Arte da Universidade Federal de Campina Grande (PB), Fernando Ventura. Em seu TCC para fechar a graduação, o cara fez um videoclipe da música Miss Me de autoria da banda Grandphone Vancouver, da qual o paraibano faz parte. O clipe faz uma reverência a vários artistas do rock mundial que marcaram a história do registro audiovisual de músicas. A criatividade do estudante foi gigante e assistir sua produção se transforma em um joguinho, onde somos tentados a recordar de qual artista cada cena remete. Divertidíssimo e hiper bem feito.
Depois de ver o clipe, me lembrei da polêmica frase (mais uma) supostamente dita por Lobão que “videoclipe é música para surdo”. Não garanto que tal assertiva realmente saiu da boca do compositor, pois não vi a entrevista em que ele teria dito isso e sei que muita fantasia envolve sua pessoa, vide a história com Clodovil. Mas não me assusta se for verdade.
Existe uma distância geracional que reflete pesado na relação com a música entre quem foi criado nas décadas de 1960/1970/1980 com quem adolesceu nas décadas seguintes. As gerações anteriores tinham um vínculo muito maior ao som, ao disco e eram obrigados a usar toda a criatividade para imaginar quais instrumentos os ídolos usavam, como eles se vestiam e qual corte de cabelo usavam. Para ver o artista, as possibilidades se limitavam a fotos dos encartes dos álbuns, uma matéria de revista aqui, um jornal ali e ponto final. Na televisão, os pouquíssimos canais disponíveis não passavam tanta música ao vivo. Videoclipes, só nos pouquíssimos programas destinados a eles e no Fantástico. A música nacional ainda tinha mais espaço nos programas de auditório, agora para ver um clipe gringo não era fácil.
A partir da década de 1990, com a chegada da MTV ao território nacional, isso mudou profundamente. Sou da geração que pegou o engatinhar da emissora no Brasil e se formou assistindo clipes. Juntávamos os amigos nas tardes de sábado para ir à casa do único do nosso grupo que tinha televisão paga para assistir ao Fúria Metal, apresentado por Gastão Moreira. Passávamos as tardes vendo clipes e mais clipes, discutindo como os caras se vestiam, o cabelo que usavam, as tatuagens, o som, as guitarras, o jeito de dançar. Com o advento do Youtube que pegou uma geração posterior à minha, isso se radicalizou. Com alguns cliques, o cara tem todo acervo de clipes e shows do seu artista preferido.
É claro que quem se formou longe desse excessivo apelo visual não valoriza o videoclipe da mesma forma das gerações posteriores. Ainda hoje gosto de assistir videoclipes. É uma boa oportunidade para conhecer artistas que só leio a respeito e nunca tive interesse para ir atrás e conhecer. Gosto tanto dos clipes que até estou com a ideia de produzir um de minha banda, o Chapéu, Cerveja e Frustrações. E também compreendo a forma de pensar de quem não tem esse apego. A perspectiva de vida de cada um se vincula àquilo que ele teve contato.
O videoclipe pode ser legal, uma bela ferramenta de divulgação e até uma obra de arte. Assim como um disco pode ser legal, uma bela ferramenta de divulgação e até uma obra de arte. Simples assim. E quando a música é sensacional aliada a um videoclipe sensacional, aí, meu amigo, sai de baixo. A coisa fica memorável.