Alguma coisa acontece nos corações de Goiânia. Um deles, sem dúvida, é o setor Sul. Um dos bairros mais antigos da cidade, coladinho ao Centro, ele está “do lado esquerdo do peito” de muitos moradores da capital. De uns, que passaram a infância ali, na casa de seus pais ou seus avós. De outros, que têm certa nostalgia de um tempo com atrativos um pouco desaparecidos nos dias de hoje – como as brincadeiras de rua, o bate papo na calçada, as ruas e a vida um tanto mais pacatas.
Mas além de ser um bairro relativamente tranquilo e cheio de memórias, desde sempre o setor Sul esteve abandonado. Em praças perto de grandes avenidas, existem verdadeiros presentes para os olhos e os pulmões, mas que são também locais escuros e absurdamente degradados, com bancos de concreto quebrados, lixo e entulho à mostra, e afins. É o que acontece, por exemplo, na viela da rua 124 (saindo da 84). Em outra praça (na avenida 85-A ou Cora Coralina), uma empresa de telefonia instalou há muitos anos uma antena, em cima de onde antes havia um parquinho com roda-roda e gangorra.
Desejando contornar essa situação, moradores do bairro têm se movimentado. No Bosque dos Pássaros, na rua 118, os próprios vizinhos é que cuidam das áreas públicas. Outro pessoal está se articulando para criar a Amassul (Associação dos Moradores e Amigos do Setor Sul), falando em dar nova vida às praças e restabelecer a segurança do local.
Artistas locais também estão ocupando esses espaços, que a jornalista Natália Garcia, do projeto Cidade para Pessoas, chamou de “jardins invisíveis”. Um projeto em Goiânia quer, inclusive, mapear os numerosos grafites já existentes, com o objetivo de refletir sobre o que a arte urbana diz da cidade. Foi em uma das três caminhadas da Jane’s Walk 2014 que a Hábil Produção, responsável pela ideia, começou a botá-la em prática. Por sua vez, as Jane’s Walk organizadas pela arquiteta Carol Farias em Goiânia, da Sobreurbana, propõem uma nova relação com a cidade, a partir do ponto de vista do pedestre. Muitas coisas legais estão acontecendo por aqui!
Do passado
Do início da ocupação do bairro (nos anos 1940) para cá, o setor Sul não mudou tanto. Mas foi palco de mudanças drásticas como o rasgo feito no meio de vielas e praças pela avenida Cora Coralina, imposição questionável que deu vazão aos carros com rumo a uma universidade instalada no bairro, em 1999. Como também as alterações no trânsito em torno da Praça do Cruzeiro em 2011, mais uma vez com o objetivo de amenizar as agruras do transporte particular, transformando ruas sossegadas em vias de trânsito intenso. “São cicatrizes que desconfiguram partes do bairro”, afirma a arquiteta e urbanista Maria Ester de Souza, professora na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO). Também vem mudando o perfil das construções, afinal muitas casinhas de vó se transformaram em escritórios ou lojas no decorrer das décadas.
Armando de Godoy, urbanista responsável pelo projeto do setor Sul, se inspirou na “cidade jardim” inglesa do fim do século 19, e criou um bairro com farta área verde – 17% de sua extensão. Sua característica mais singular, no entanto, é o desenho das ruas e quadras, em cujos semicírculos chamados “cul-de-sac” se deveria ver o fundo das casas. A entrada principal é que teria de estar voltada para as áreas livres interligadas, condição número um para que não se transformassem em espaços abandonados desde a sua criação.
Quanto a mim, aprendi a andar de bicicleta com meu avô, em uma viela do setor Sul. E você?
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