Goiânia – Tem notícias que me deixam esperançoso acerca do futuro da humanidade. São raras, é verdade, mas elas estão por aí. Um exemplo é o da garota de 12 anos que está sob ameaça de expulsão da escola onde estuda nos EUA por conta de seu cabelo. A menina não aceitou a imposição da instituição e disse que vai manter suas madeixas da forma que bem entender. Palmas para ela!
É raro ver alguém tão novo com um discurso maduro como o de Vanessa Van Dyke. “Ele (o cabelo) mostra que sou única. Eu gosto desta maneira. Eu sei que as pessoas vão me provocar porque ele não é liso, mas eu não ligo”. Não dá vontade de dar um abraço nessa baixinha?
A escola de Orlando, na Flórida, argumenta que o cabelo de Vanessa seria uma distração para os alunos. Bobagem. No mundo de hoje, com redes sociais chamando a atenção de tudo quanto é lado, um cabelo black power não é distração alguma. Aliás, para uma geração que se orgulha de dar conta de fazer mil coisas ao mesmo tempo, a razão mostrada chega ao ridículo.
Apostaria um jantar que se trata de racismo. Camuflado, cheio de dedos, constrangido, mas ainda racismo. Afinal, se um cabelo liso do mesmo comprimento do de Vanessa fosse a escolha de alguma aluna, não haveria nenhum tipo de problema. O que causa incômodo é que eles são crespos e a menina se orgulha disso. Esse é o cerne da questão.
Tenho alguma experiência quando o assunto é cabelo que foge do comum. Ainda na adolescência, deixei meu cabelo crescer. Sabe como é, moleque que gosta de rock tem que ser cabeludo. Nessa fase do crescimento capilar quando os cabelos enrolados ficam para cima, é claro que também fui vítima da zoeira sem fim. Eu não tinha a maturidade de Vanessa para lidar com o assunto. Andava de boné o tempo todo. Até para dormir ou tomar banho. Só abandonei o uso diário do boné quando meu cabelo atingiu tamanho suficiente para ser amarrado. Veja o quanto eu era bobo…
Ainda hoje tenho total preferência pelos cabelos que não são arroz com feijão. Já tive tudo quanto é tipo de corte que você pensar: black, dreadlock, nos ombros, curto, rockabilly, mechas compridas com o restante raspado na máquina…
Tenho dificuldade para entender quem fica sempre com a mesma cara. E meu gosto já se tornou folclórico entre os mais próximos. Poucos dias atrás, elogiei o cabelo de um amigo. Dois dias depois, ele apareceu com as madeixas cortadas. Explicou: “Vi que meu cabelo estava esquisito quando o Pablo elogiou.”.
Por isso fico feliz quando vejo que uma garotinha já tem seu posicionamento claro quando o assunto é cabelo e identidade. A luta dela também é a minha. Com o mérito para Vanessa de ter se mostrado bem mais capaz do que eu para empreender esse debate.
Vanessa, você orgulha todo mundo que não cai na ditadura da escova, todo mundo que não cai na opressão do gel no cabelo, todo mundo que não quer ter o cabelo que não cause estranhamento ao olhar. Muito obrigado por comprar essa briga ainda tão novinha.
Você me faz sonhar com um mundo onde as diferenças não serão mais notícias e nem motivo para bullying em ninguém.