Logo

Orgulho de ser maloqueiro

27.02.2013 - 19:08:08
WhatsAppFacebookLinkedInX

Optei pela maloqueiragem há tempos. Logo no início da adolescência. Deixei o cabelo crescer, furei a orelha, rasguei calças e bermudas que de tão largas cabiam dois de mim em versão magrela da puberdade, comprei camisetas de bandas que meus pais sequer conseguiam ler os nomes. Comparado com o visual maloqueiro da juventude de hoje, eu parecia um coroinha. Por favor, eram outros tempos, entenda. Até hoje não abandonei a esquisitice na aparência.

Por conta dos longos anos nesse métier, os olhares de estranhamento quando chego a um ambiente não me incomodam. Digo mais, nem percebo que estou causando algum tipo de burburinho. Sou calejado. E, se percebo algum olhar mais incisivo, a situação me diverte. Não me sinto constrangido ou deslocado. Por favor, passe a peroba para eu lustrar meu rosto.

Fiz esse extenso preâmbulo só para contextualizar uma história que aconteceu recentemente e me deixou intrigado. Eu tinha um compromisso profissional que, embora não estivesse explicitado no convite, sabia que tinha que ir mais arrumadinho. Meu guarda-roupa não é farto desse tipo de vestimenta. Elementar, pois nunca foquei em gastar dinheiro nesse padrão de roupa. Aliás, gastar dinheiro em roupa não é comigo mesmo. E, por não ser minha cara, tampouco fui presenteado nessa linha da moda. Para a ocasião, saquei uma antiga camisa que, embora não fosse a ideal, achei que seguraria a onda do evento.

Doce ilusão. Fui o assunto geral de toda rodinha na qual chegava. Com comentários os mais vastos possíveis. Desde elogios à minha “autenticidade” e gente falando que minha camisa parecia a do Agostinho da Grande Família, até pessoas da pior estirpe comentando de lado com maldade suficiente para me deixar ouvir que “não acreditava que eu estava vestido daquela forma para uma ocasião solene”. Entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Cerro meu punho direito e o ergo ao alto tal qual um pantera negra no pódio olímpico: sou orgulhosamente maloqueiro e não estou nem aí!

Antes de tudo, essa é uma opção de vida. Eu diria até arriscada. Não é para quem não aguenta a peia. Não dava para eu ter qualquer tipo de profissão. Enveredei por uma em que a maloqueiragem é parcialmente aceita, ao menos em algumas de suas ramificações. Não dei ouvidos aos cuidadosos conselhos da família. Tal qual Sinatra, trilhei meu caminho. E não posso dizer que me arrependi. Tive portas fechadas na minha trajetória? É bem provável. Estou triste com isso? Definitivamente não.

A maloqueiragem vem de dentro. Quando vou almoçar no shopping, vejo os engravatados subindo e descendo a escada rolante e penso: “ainda bem que não preciso andar assim”. Um orgulho bobo e pueril, sei disso. Mas que me faz incrivelmente bem. Já deixei para trás o ponto de inflexão quando a maioria larga a maloqueiragem. Costuma ser logo depois da colação de grau. Na hora do primeiro emprego sério, na hora em que precisamos ganhar alguma grana para justificar aos pais os anos de investimento em nossa educação. Depois que vencemos esse estágio, as coisas se encaminham mais facilmente. Depois dos 30, se ainda é maloqueiro, será maloqueiro até a morte. O que é meu caso. Estou no time do “uma vez maloqueiro, sempre maloqueiro”.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

Mais Lidas
Postagens Relacionadas
Joias do Centro
27.02.2026
Uma árvore, muitas camadas de memória na Rua 20

Carolina Pessoni Goiânia – Há árvores que oferecem sombra. Outras oferecem memória. Quem passa pela Rua 20 talvez veja apenas mais uma delas, de grande porte, em frente ao antigo casarão que abrigou a primeira moradia de Pedro Ludovico e, mais tarde, a Faculdade de Direito que deu origem à Universidade Federal de Goiás (UFG). […]

Meia Palavra
27.02.2026
‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ leva humor, aventura e bondade para Westeros

Se tem um universo que parece ter gerado uma terrível ressaca coletiva é o de Game of Thrones. Após o final patético da série e duas temporadas ocas de A Casa do Dragão, parecia que qualquer tentativa de retomar esse mundo no streaming não teria a menor chance de reconquistar a boa vontade da audiência. […]

Noite e Dia
27.02.2026
Evento na sede da OCB/GO marca lançamento do maior congresso de cooperativas de crédito do mundo; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Sistema OCB/GO lançou, nesta quinta-feira (26/2), o 16º Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito (Concred), maior evento do cooperativismo financeiro no mundo. A apresentação foi realizada no edifício Goiás Cooperativo, em Goiânia, com a presença do presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira; do presidente da Confederação Brasileira das Cooperativas […]

Noite e Dia
25.02.2026
Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás reúne autoridades e personalidades em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – A entrega das premiações da edição 2026 do Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás foi realizada nesta segunda-feira (23/2). Promovido pela Contato Comunicação, a 16ª edição foi realizada na Câmara de Goiânia, no Auditório Jaime Câmara. O reconhecimento contempla os nomes mais citados por jornalistas e formadores de opinião do […]

Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]