Aline Mil
Aos 54 anos, o consultor de imóveis comerciais, Manuel Marques, se orgulha de dizer que é “pãe”. O neologismo, conhecido entre os pais solteiros, é a junção dos termos pai + mãe. Os filhos do consultor, Francyne, 21, e Rafael, 20, já estão adultos, ambos fazem faculdade, cada um tem o seu carro e estão, a cada dia, mais independentes. Porém, nem sempre foi simples assim.
Manuel cuida dos dois sozinho desde que se separou da mãe dos meninos, há cerca de cinco anos, depois de 17 anos casado. Mas, mesmo durante o casamento, era ele quem tomava a frente na criação dos filhos. “Quem acordava a noite para esquentar mamadeira quando eles choravam, era eu. Correr para o médico, levar nas festinhas, também era eu. E sempre gostei”, conta ele.
Quando era casado, Manuel ainda tinha a ajuda de funcionários e babás. Assim que se separou, era apenas ele e os dois filhos, então adolescentes. Foram várias dificuldades, orçamento apertado e muita correria, no entanto, tudo correu bem. Hoje, Manuel não consegue imaginar sua vida de outra maneira. “Amo meus filhos, meu trabalho. Na época foi difícil ficar com todas as responsabilidades, não foi fácil deixar tudo que construí pra trás e recomeçar. Mas hoje eu sei que faria tudo novamente. E fiz tudo por eles”, se emociona o consultor.
Referência
Para a mestre em psicologia, Annelize Lisita, filhos que ficam só com o pai ou só com a mãe sempre terão o mesmo problema: a falta do referencial. “Não vejo diferença. Assim como os que ficam com a mãe sentirão falta de uma figura paterna, os que ficam apenas com o pai também vão sentir falta de uma figura materna”, explica ela.
A psicóloga analisa que, para a criança ou jovem não ter problemas em sua formação emocional pela falta de influência feminina, não é preciso que o pai substitua a antiga companheira dentro de casa. Annelize explica que apenas uma outra figura, como uma avó ou uma tia, já é suficiente para amenizar a ausência.
Conselheiro
A estudante de jornalismo Camila Rodrigues, hoje com 20 anos, tem só o pai, Antônio Teodoro Neto, 57, como referencial desde os 9 anos. A mãe se mudou para a Europa e, esporadicamente, visita o Brasil. Mas, por mais que a estudante admita sentir falta de mais proximidade com a mãe, ela conta que é feliz ao lado do paizão. “O chamo de ‘meu pãe’ porque tudo que acontece é ele quem me socorre, ele é quem me dá conselhos, ele quem cuida da gente”, conta a alegre estudante, que tem um irmão mais novo.
Antonio Teodoro, que é comerciante, admite que é preciso muito malabarismo para ser pãe. “Não é fácil, principalmente quando eles são mais novos. Meus filhos estudavam em escolas diferentes, a correria era grande”. Camila acredita que a experiência também a ajudou a amadurecer mais cedo. “Meu pai fica sobrecarregado, então é preciso ter mais responsabilidade”, pontua.
Na hora de pedir conselhos, é o pai quem ajuda a filha. Quando Camila estava em dúvida sobre qual curso escolher na hora do vestibular, o pai estava lá para ajudá-la. Até nos namoros, o comerciante se sente à vontade para orientar a filha. “Apesar de todos os problemas, é necessário lutar pelos filhos da gente. Graças a Deus, sinto que venci”, comemora Antonio.