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Orgulho e preconceito

07.01.2013 - 10:22:17
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Goiânia – Ao longo de toda a minha vida, posso contar nos dedos quantas pessoas pronunciaram meu sobrenome corretamente. O certo é “Amú”, mas geralmente falam “Ramú”, “Amur”, “Ramur” e já houve até quem arriscasse um “Araújo” ou “Ramos”, pensando ter lido errado. 

Minha origem árabe sempre foi denunciada, não apenas pelo sobrenome, mas também por outras coisas, como as comidas servidas na minha casa. Quando iam fazer algum trabalho escolar ou de faculdade, minhas colegas não comiam bolo ou pão de queijo no lanche. Tínhamos conservas de berinjela, pasta de grão-de-bico, ariche e outros “pratos engraçados”, como elas gostavam de dizer.

 
Também convivi muito com piadinhas do tipo “nunca vou te pedir dinheiro emprestado porque todo árabe é muquirana” ou “cuidado para não vender a mãe no mercado, porque todo árabe só pensa em negociar para ganhar dinheiro”. Já houve até quem me perguntasse se eu andava de burca em casa ou reverenciava Alá o dia todo.
 
Não por acaso, não me surpreendi quando uma amiga que é professora de História do Ensino Médio comentou comigo que esperava não ter a mesma dificuldade que enfrentou no ano passado de falar aos alunos sobre a Primavera Árabe. “Eles achavam uma bobagem discutir o conflito, porque pensavam que os árabes são todos bárbaros e ignorantes”. 
 
Segundo ela, um aluno mais irônico chegou a sugerir que os árabes é que deveriam estudar a história do Brasil, pois tinham muito a aprender com os brasileiros sobre civilidade. “Os Estados Unidos deveriam exterminar essa raça. É um povo fanático, violento. Todo mundo pensa assim, professora, a diferença é que eu tenho coragem de falar”, alegou o rapaz. 
 
Triste constatar que quem, aparentemente, tem todo acesso ao conhecimento e à possibilidade de saber as várias versões de uma mesma história, não se interessa por isso e prefere repetir clichês. Não se dá ao trabalho de estudar a fundo questões polêmicas e usa de preconceito para justificar algo que não conhece.
 
Minha origem árabe vem por parte dos meus avós maternos, que eram sírios. Meu avô chegou ao Brasil aos 20 anos de idade, sem falar uma palavra em português, com o objetivo de trabalhar e conseguir ajudar os irmãos que haviam ficado na Síria. Desembarcou em São Paulo com a cara e a coragem.  
 
Ele não recusou nenhum tipo de trabalho e fez de tudo um pouco. Veio para Goiás e, depois de conhecer e se casar com a minha avó em Catalão, percorreu o interior do Estado mascateando. Até que chegou a Goiânia, apenas três anos depois da fundação da cidade, e aqui fixou suas raízes para sempre.
 
Meus avós não podiam se dar ao luxo de desperdiçar nenhum centavo porque não tinham ninguém a recorrer. Ao contrário, precisavam ajudar seus familiares. Trouxeram irmãos, primos e sobrinhos para morar na casa de Goiânia, fazendo dela o porto seguro de quem vinha à capital em busca de melhores oportunidades. 
 
Com o tempo, conseguiram se estabelecer definitivamente com o comércio e construíram algumas salas para alugar, que garantiam uma renda fixa. Além de ajudar os parentes, eles também ajudavam creches, abrigos de idosos e de portadores de necessidades especiais. 
 
Minha avó não comemorava seus aniversários em casa. Todos os anos, ela ia para uma creche que abrigava crianças carentes e fazia lá sua festa. Em vez de presentes, pedia aos amigos e familiares que dessem salgados, doces, bolo, refrigerante e brinquedos para fazer a alegria dos pequenos.
 
Minhas lembranças de infância são de acompanhá-la a diversas visitas a empresários de posses, nas quais ela pedia, sem nenhum constrangimento, que eles ajudassem as instituições filantrópicas que ela apoiava. Levou vários “nãos”, mas não se abatia e se animava com cada “sim” recebido. Tinha disposição e coragem de sobra. 
 
Meus avós passaram fome, perderam seus bens várias vezes, perderam um filho jovem, sentiram saudade de gente que estava do outro lado do mundo, mas nunca deixaram de ser generosos nem de terem gratidão em relação à vida. São esses os traços do povo árabe que conheci e que faço o possível para conservar.
 
Grande parte dos árabes é sobrevivente de países que tiveram suas fronteiras totalmente modificadas pelos europeus, que em suas batalhas imperialistas levaram em conta apenas os aspectos comerciais e geográficos de cada nação, traçando limites artificiais e desprezando a cultura desses povos. 
 
São sobreviventes de ditaduras apoiadas pelos EUA na época da Guerra Fria. Os mesmos norte-americanos que hoje se mostram os baluartes dos direitos humanos e da liberdade são os que forneceram aos governos ditatoriais árabes armas e treinamento militar, sem se importar com a opressão do povo nem com a corrupção.
 
É gente que luta com unhas e dentes para garantir a preservação do resto de cultura e dignidade que resta aos seus povos. É verdade que há árabes violentos e fanáticos. O problema está na generalização, no fato de rotular nações inteiras por causa dos atos cometidos por um grupo de pessoas.  
 
Para saber o quanto esse tipo de preconceito é injusto e incômodo, basta inverter a situação. Ficamos extremamente chateados quando ouvimos os estrangeiros nos rotularem como desonestos e safados. Frequentemente, mulheres brasileiras solteiras que decidem fazer um curso no exterior precisam explicar que estão lá para estudar e não para fazer programa (digo isso com conhecimento de causa). 
 
Ler, pesquisar e buscar saber mais sobre o mundo dá trabalho. Repetir velhos lugares comuns é mais cômodo. Só quando somos nós o alvo do preconceito é que paramos para refletir sobre o fato de que talvez a verdade a respeito das coisas seja mais complexa do que imaginávamos que fosse. 
 
Certa vez, uma colega de mestrado marroquina me perguntou como era a vida da mulher brasileira. Sem pensar muito, respondi que era boa, porque no Ocidente tínhamos muita liberdade e podíamos tomar contar de nossas vidas sem ter de satisfação a nossos maridos ou pais.
 
Ela então me respondeu: “Sempre ouço dizer que vocês se matam de tanto trabalhar e que ainda chegam em casa e precisam cuidar dos afazeres domésticos e das crianças. Sei que muitas mulheres criam seus filhos sozinhas, sem a ajuda do pai. Além disso, vocês se veem na obrigação de estarem sempre lindas e sensuais. Você realmente acredita que é mais livre que eu?”.
 
Não sou mais livre que ela. Porque, na realidade, todos os povos, de todas as nações, têm suas mazelas e barreiras a serem vencidas. É por isso que não renego minhas origens e não me acanho de dizer que elas me honram muito. Eu sou sírio-brasileira, com muito orgulho, com muito amor.  
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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