Especialistas em estudos intertextuais já fizeram referências a diversas metáforas sinonímicas para esse fascinante campo de estudos que interliga os textos das mais diversas procedências no tempo e no espaço. O conceito de intertexto, em si e por si, faz lembrar a denominada “ponte Einstein-Rosen”, nome técnico com que é conhecido o famoso buraco de minhoca, ou de vermes, que se apresenta como atalho no espaço-tempo que, em tese, ligaria regiões espaciais que se encontram nos antípodas uma da obra.
A referência pop mais significativa a esse fenômeno físico é, sem dúvida, o filme “Interestelar”, de Cristopher Nolan. De forma análoga, no âmbito textual a correlação entre textos liga universos imaginários bastante distanciados, por vezes, no tempo e no espaço, reiterando a influência recíproca entre eles. Neste contexto, um dos termos metafóricos para a intertextualidade é “biblioteca”, que também possui o seu campo semântico próprio e bem definido, respondendo em sua performance cultural pelo estudo técnico da informação em diversas frentes de atividades no vasto espectro do saber.
Este achado teórico do século 20, o intertexto, fez com que elementos importantes dos estudos literários fossem retomados sob um novo olhar, como é o caso da paródia, que teve um pequeno detalhe etimológico resgatado, possibilitando uma nova exegese de seu significado por parte de pesquisadores como o francês Gerard Genette e a canadense Linda Hutcheon. Ambos dissecam a etimologia do termo, apresentando ao leitor a informação de que “para” significa “ao lado”, enquanto “odos” significa “canto”, do verbo “cantar”.
A junção de ambos os termos forma a palavra “paródia”, cujo significado ficou restrito na grande maioria das vezes a uma acepção de caráter negativo, tratando-se não raro de uma produção burlesca que tinha a intenção de ridicularizar uma determinada obra que houvesse ganhado uma grande repercussão. No geral, é esse o significado que os dicionários não especializados trazem, conforme registra, por exemplo, o dicionário luso-brasileiro Priberam: “Paródia: 1. [Literatura] Imitação burlesca de uma obra séria. 2. [Por extensão] Imitação, reprodução burlesca de qualquer coisa. 3. [Popular] Animação, farra, pândega”.
Mesmo obras especializadas, não raro, repercutem esse sentido mais restrito. Em “Teoria da Comunicação: Ideias, Conceitos e Métodos”, o pesquisador Luís Mauro Sá Martino explora bem os conceitos de intertextualidade, paráfrase e paródia, mas passa apenas raspando pela conceituação de Genette e Hutcheon, que apresentam a paródia como possibilidade também de uma homenagem e não apenas uma crítica a determinada obra.
Um exemplo marcante disso, embora não tenha sido mencionado como homenagem, encontra-se no livro de Sá Martino, quando o autor menciona o percurso histórico da lenda do indivíduo chamado Fausto, que foi eternizada por Johann Von Goethe em sua clássica peça “Fausto”. “Teoria da Comunicação” informa que no início do século passado, outro escritor alemão, Thomas Mann, apropriou-se da leitura faustiana de Goethe para reelaborar a sua escrita, verdadeira homenagem, conforme postulam Gerard Genette e Linda Hutcheon em “Palimpsesto: A Literatura de Segunda Mão” e “Uma Teoria da Paródia: Ensinamentos das Formas de Arte do Século XX” respectivamente.
Em “Doutor Fausto”, Thomas Mann descreve a trajetória atormentada do compositor clássico Adrian Leverkhün, que emula através de uma sífilis o pacto fáustico da venda da alma ao diabo. Leverkhün pretende dar ao mundo a sinfonia perfeita. Essa obra manniana representa, no contexto parodístico resgatado à etimologia, uma homenagem, uma vez que o canto ao lado do outro canto pode ser uma reverência e não apenas um repto mordaz, irônico, fruto do desprezo de um autor para com a produção de um colega profissional.
Outro exemplo possível, que não consta da obra de Luís Mauro Sá Martino é o romance “Orlando: Uma Biografia”, da escritora britânica Virginia Woolf. A narrativa de “Orlando…” traz a singular história de vida da personagem homônima, cuja trajetória abrange cerca de três séculos e meio de existência e culmina num processo mágico em que Orlando, homem, transforma-se por um autêntico feitiço da lua em Orlando, mulher. Ambas as trajetórias são motivos de reflexões comparativas por parte da personagem, ensejando ao leitor interessantes abordagens do inusitado problema.
Num conjunto mais amplo de relação entre textos, “Orlando: Uma Biografia” representa uma verdadeira paródia-homenagem a uma obra com tema semelhante publicada pelo escritor francês, Honoré de Balzac, no ano de 1834, intitulada “Seráfita Serafitus”, que está enfeixada no todo de sua colossal “A Comédia Humana”. Neste romance balzaquiano, tem o leitor a figura de um ser angelical que ora se apresenta como homem, ora como mulher, à percepção de dois enamorados distintos, um rapaz e uma moça. Honoré de Balzac diviniza o processo da androginia. Virginia Woolf o homenageia, humanizando esse mesmo processo.
De permeio, a autora britânica intertextualiza o seu conterrâneo mais famoso, William Shakespeare, quando Orlando, ainda homem, desce ao cemitério da família e observa os esqueletos de seus ancestrais. Ao tomar das mãos de um antepassado, passa a refletir sobre as possíveis ações, nobres ou nem tanto, de que aquele membro de seu antepassado foi o instrumento realizador. A alusão intertextual liga dois universos literários distintos ao fazer uma clara alusão ao famoso crânio de Hamlet e sua proverbial sentença “ser ou não ser”, o que no contexto de “Orlando…” prepara o leitor para a mudança de sexo do protagonista biografado.
De todo esse contexto teórico, ressalta que se pode inferir que a paródia ocorre no conjunto da obra; o intertexto, em fragmentos dela. Numa ou noutra condição, a correlação textual representa sempre um buraco de minhoca a ligar dois universos bem distintos, como a preocupação espiritualizante de Balzac e a humanização andrógina de Virginia Woolf.
*Gismair Martins Teixeira é pós-doutorando em Ciências da Religião pela PUC-GO; Doutor em Letras e Linguística pela UFG; professor e pesquisador do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduc-GO.
*Myriam Martins Lima é bacharel em Biblioteconomia pela UFG e mestranda em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG.