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Os amores modernos de Frances Ha

27.01.2014 - 10:09:55
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                                                                                                                                                                                  (Foto: divulgação)

Goiânia – Vi com atraso o Frances Ha, muito comentado/divulgado em terra brasilis por ser coprodução brasileira, com dedo de Rodrigo Teixeira no meio. Salvo engano, foi bem visto por aqui, e agora entra na semana da Retrospectiva 2013 do Cine Cultura, tendo sido um dos sete mais votados pelo público.
 
O filme é dirigido por Noah Baumbach, que em 2005 fez o muito bom A Lula e a Baleia e depois não engatou nada de muito interessante (Margot e o Casamento em 2007 e O Solteirão em 2010). Até chegarmos a este Frances Ha, um aceno dos mais graciosos para o cinema francês, a Nouvelle Vague, sobretudo para Leos Carax e François Truffaut.
 
Ou, como completou um amigo, não um aceno, mas uma levada pra cama, uma esfregação, umas pegadas, tudo sem abandonar a ternura, em nenhum momento.
 
Conhecemos um pouco da vida de Frances (Greta Gerwig), moça – ainda nos 30, afinal – de Nova York que não tem residência própria, nem namorado, tampouco emprego. Divide apartamento com a melhor amiga (Mickey Summer), é considerada "inamorável" por outro roomate e é apenas aprendiz de dançarina numa companhia de dança que pode ou não contratá-la para trabalhar.
 
Dito assim, soa como uma dessas comédias românticas previsíveis, em que todos os problemas começam a ser resolvidos a partir do momento em que a protagonista encontra um cara. No entanto, Frances Ha, filme e personagem, ao contrário de qualquer coisa com Zooey Deschanel, é mais íntimo da autenticidade do que se supõe.
 
Entre as dificuldades de se virar sozinha, temos uma mulher – já nos 30, afinal – a (re)descobrir sua identidade. Para tanto, a interpretação de Gerwig é uma exatidão, fazendo de Frances um traço alegre e meio torto, um hífen embaçado a dividir uma moça-mulher, e Baumbach a filma assim, quase como uma menina grande. Há nela certa timidez e insegurança, mas também explosões espontâneas que a levam, enfim, a aproximar-se de si mesma e, não surpreendentemente, da França, que é sobretudo uma aproximação do próprio filme.
 
O início, coleção de cenas que resumem a proximidade entre Frances, cujo nome lembra "França", e sua amiga de nome francês, Sophie, parece resumir a força do filme. Estão elas, sempre juntas, no parque, na lavanderia, no apartamento, quase eternas. Não demora para que nossa protagonista perca o que parecia ser uma de suas bases e tenha que aprender a se reconfigurar, se jogar no mundo, movida por sentimento, porque é assim com boa parte das pessoas, certo?
 
Ainda que singelo, esse começo é muito poderoso. Entrega-nos um filme de amor. Não o amor romântico (inexistente no filme, chegando a ser descartado ao menor indício de que algo pudesse acontecer, como num diálogo entre Frances e um de seus dois roomies; é, não há clima de Jules e Jim aqui), mas o amor de amizade. E é dessa relação afetuosa que surge a paixão pelo cinema moderno francês, um "modern love" como o que serve de trilha para a corrida de Frances no meio da rua, espelhada no pique dado por Denis Lavant em Sangue Ruim (1986), de Carax.
 
Frances corre como Lavant (embora para o outro lado, para a esquerda, porque essa corrida é dela), dança molecamente à beira de uma fonte e do nada decide viajar pra Paris por apenas dois dias. Enquanto isso, Baumbach dosa seu longa com cortes descontínuos, trilhas de Georges Delerue e um preto-e-branco ao mesmo tempo doce e insinuante, ou seja, um pacote Nouvelle Vague que faz da visita à capital francesa, tão impetuosa para a personagem, algo natural, para não dizer inevitável. Todos os contratempos parecem levar àquele destino, de importância física (para a protagonista) e simbólica (para o filme), cidade em que, não por acaso, incentivará cena de declaração das mais bonitas.
 
Felizmente, o filme está longe de ser refém de suas referências, evitando se transformar numa brincadeira interna entre cinéfilos (porque, como já disse uma vez, com o amor moderno pelo cinema também nasce e se desenvolve uma faceta um tanto insalubre da cinefilia). Toma logo uma vida própria, lá no começo mesmo, naquelas brincadeiras joviais que ignorariam qualquer censura adulta. O plano final, que serve de fundo para os créditos, não deixa a menor dúvida: Frances Ha, filme e personagem, finalmente oficializam seu encontro.
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por Fabrício Cordeiro

*Crítico de cinema e curador da Goiânia Mostra Curtas 2013 - Mostra Municípios

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