Goiânia – Toda cidade que se preze tem seus bares marcantes. Em Goiânia, o Joãozinho Mercês está nessa seleta categoria. As memórias do local me vieram à mente no último sábado. Eu era o apresentador do show da Tiê no projeto CCBEU Tunes. Antes de começar o som, encontrei meu amigo Bruno Cabral que estava trabalhando no estande da excelente Cerveja Colombina. Para quem não sabe, a cerveja artesanal que está conquistando cada vez mais paladares é produção da família Mercês, a mesma que tocava o já icônico bar.
Quem é roqueiro goianiense com mais de 30 anos tem o lendário Joãozinho Mercês guardado no coração, na mais alta estima. Ele funcionava em frente ao Old Studio, que na época era chamado de Estúdio do Marcelo, e até hoje é casa de parcela significativa da cena local. Não é exagero dizer que o rock goiano não seria o mesmo sem o Old. Várias bandas tiveram ensaios e mais ensaios naquela sala da Rua 24 no Setor Central. Enquanto esperávamos nosso horário, sentávamos no bar para tomar o chope mais barato da cidade – sabe como é, dinheiro no bolso de roqueiro é mais escasso que água na Cantareira.
Naquelas mesas surgiram bandas, terminaram bandas, começaram namoros, músicas incríveis foram compostas, debates ferrenhos travados e litros e litros e litros de chope foram sorvidos para porres homéricos de ressacas espinhentas no dia seguinte.
O público era o mais heterogêneo possível, típico de boteco do Centro de qualquer metrópole. Uma fauna riquíssima, digna de documentários do Discovery Channel. De bancários engravatados a travestis que trabalhavam na Paranaíba, de estudantes de cursinho a traficantes de qualquer droga desejada, de maridos infiéis com a amante nas mesas de canto a gente disposta a uma relação sexual com qualquer um que topasse. E um monte de roqueiro cabeludo pegando fila para comprar mais fichas de chope.
No fundo do bar, ao lado do banheiro, tinha um palquinho onde rolava som ao vivo. Forró e sertanejo dominavam geral. Os casais dançavam, se encoxavam e suavam naquela sala quente com poucos ventiladores de parede que faziam circular o ar quente e a fumaça dos cigarros consumidos compulsivamente por grande parte dos frequentadores. Lembre-se que eram outros tempos e era normal fumar em ambientes fechados.
A porção de torresmo era um clássico. Depois de tocar fechado na salinha por duas horas, era a hora de fazer a resenha e matar a fome gigantesca que bate após todo ensaio de banda de rock – pelo menos nos ensaios mais inspirados. Discutir se o riff de guitarra deveria ser mudado ou não, se aquela passagem da música estava caindo bem ou não, qual seria o set list para o próximo show enquanto beliscávamos um torresmo com fartos goles de chope.
Os tempos passaram e o roqueiro que ensaia hoje no bravo Old, ainda administrado pelo gente boníssima Marcelo Kozlowski, não tem mais o Joãozinho Mercês como referência etílica de baixo custo. Uma pena. Pois a geração que ali foi talhada nunca mais se esqueceu do prazer de um chope a preço popular antes e depois de um ensaio barulhento e com suor escorrendo corpo abaixo no Centro da cidade. Enquanto nossa geração se importava se o estúdio tinha cerveja barata ao redor, a geração atual quer saber se o local de ensaio tem Wi-Fi liberada. São os novos tempos, meu caro, os novos tempos.