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Os Dead Kennedys comprovam: o Rock vai bem, obrigado

27.04.2019 - 08:24:00
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A semana foi agitada para o Rock nas redes sociais. Tudo graças a esta belezura de cartaz, anunciando a turnê dos californianos Dead Kennedys pelo Brasil, em maio.
 
 
 
 
Os Dead Kennedys, nascidos em 1978 na cidade de San Francisco, são uma legenda do hardcore – aprofundamento sonoro e político do punk rock. Capitaneada pelo inigualável Jello Biafra, a banda fez história com performances avassaladoras, humor cáustico e oposição ferrenha ao american way of life. Tornaram-se a mosca na sopa do sistema. E pagaram caro por isso. 
 
Em 1986, o encarte do álbum “Frankenchrist” enterrou os DK. Tratava-se de uma reprodução da obra “Work 219: Landscape XX” (também conhecida como “Penis Landscape”), do notório artista suíço H. R. Giger – o cara que criou o visual do Alien no cinema. Foi o suficiente para serem acusados de distribuir pornografia para menores. Moralismo é um câncer.
 
Diante do imbróglio jurídico-criminal, a banda se desfez. Jello seguiu absolutamente fiel a seu ideário anárquico: montou novas bandas, participou de discos de amigos, militou politicamente, lançou centenas e centenas de álbuns incríveis através de sua própria gravadora, a Alternative Tentacles. Contracultura encarnada em um homem só, a política sempre ocupou o centro das preocupações do vocalista. Para se ter uma ideia, concorreu à prefeitura de San Francisco. Entre as propostas, políticos fossem obrigados a circular ostentando nariz de palhaço. Pobre Bozo. (O deles, não o nosso.)
 
O restante da banda não fez grande coisa. Em uma ferrenha disputa judicial, ficaram com o nome Dead Kennedys. Treta feia. Jello afirma que a confusão se deu por não ter cedido a icônica faixa “Holiday in Camboja” para um comercial da Levi’s. Do outro lado, acusam o cantor de não pagar os devidos royalties pelo catálogo da banda. De qualquer forma, o fato de jamais terem composto material inédito desde 1986 corrobora a ideia destes Dead Kennedys que vêm ao Brasil não passarem de um projeto caça-níqueis.
 
A primeira grande questão surgida durante a semana foi justamente esta: vale a pena conferir o show de uma banda que é mero pastiche de sua formação clássica? O debate pegou fogo nas redes. Qual a legitimidade destes Kennedys sem Jello Biafra? E qual o problema de se ver o show de uma banda sem legitimidade?
 
Fui a vários shows do CJ e Marky Ramone. Na ausência dos Ramones originais, é o mais próximo que posso chegar de vê-los ao vivo. Fizeram parte da banda, tocaram aquelas músicas, trabalharam duro. Acho justo que continuem ganhando seus trocados. Um dos shows mais divertidos da minha vida foi com Paul Di’Anno, seminal vocalista do Iron Maiden, mandando um bailão do Rock com covers que iam de KISS a Stevie Wonder. De modo que fiquei compelido a ir até Brasília conferir os DK. Principalmente após o cartaz de divulgação da turnê.
 
Criado pelo artista gráfico alagoano Cristiano Suarez, o cartaz dos Dead Kennedys em terra brasilis é jóia rara. Traduz a (suposta) essência da banda, entrelaçando-a com o tenebroso momento político no qual o país está atolado. Viralizou pesado. Quando deitei os olhos peça publicitária, bateu aquele sentimento de que o Rock ainda é capaz de dar respostas transgressoras às questões mais prementes da sociedade. Foi aí que começaram os problemas.
 
Diante da repercussão do cartaz – bem maior que a da vinda da banda propriamente dita –, os Dead Kennedys se apressaram em tirar o seu da reta. Disseram que não era oficial – o que foi desmentido pelo próprio Cristiano – e que não se sentiam confortáveis em tomar posição em relação à política brasileira. Vetaram o cartaz. Os fãs chiaram e a banda retirou o comunicado do ar. Bunda-molice dupla. E um baita papelão. Poucas coisas podem ser mais deprimentes que punk em busca de conforto.
 
Eu – que não tenho grandes problemas com velhos músicos ganhando a vida em cima de um passado de glórias – brochei. Sou capaz de aceitar, de bom grado, artistas caça-níqueis. O episódio, contudo, possui outra natureza. Com o acovardamento da banda diante do cartaz, o que se rompeu em definitivo foi qualquer lampejo de integridade e dignidade que poderiam ter esses Dead Kennedys. Mais feio que banda cover do Rage Against the Machine formada por eleitores do Bolsonaro. Lamentável.
 
O entusiasmo inicial com a vinda da banda – posteriormente turbinado pela potência da criação de Cristiano Suarez – foi substituído por uma decepção sem tamanho. As redes imediatamente registraram a desistência de grande parte do púbico previsto para a turnê. O Rock não perdoa.
 
Mas a coisa não parou por aí. Se os DK renegaram o tal cartaz, várias bandas nacionais se apropriaram dele. Como os contemporâneos Ratos de Porão, que no momento circulam pelo Brasil tocando na íntegra o icônico álbum homônimo – algo que o momento político exige de uma banda que se diz punk.
 
Eu, que por anos a fio produzi shows desse porte, sei que o prejuízo –praticamente certo em condições normais – agora é incontornável. A bem da verdade, me surpreenderá o não cancelamento da turnê. Se os shows acontecerem, prevejo público minguado e grilado. Chuva de saliva no ar.
 
Doloroso perceber que os atuais Dead Kennedys não passam do arremedo de uma das bandas mais inovadoras, radicais e destemidas de que já se teve notícia. Covardes, não respeitaram seu público e, tampouco, a própria trajetória. Servem como um indicador de que o Rock segue vivo e pulsante. Não neles mesmos, mas em um artista capaz de criar um cartaz desafiador e antológico, em um público crítico que não se permite seguir cegamente os heróis de outrora, e em outras tantas bandas, que chamam para si o duro papel de resistência ao retrocesso no Brasil. Os Dead Kennedys estão, mais do que nunca, mortos.
 
 
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por Márcio Jr.

*Márcio Mário da Paixão Júnior é produtor cultural, mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG. Foi sócio-fundador da Monstro Discos, MMarte Produções e Escola Goiana de Desenho Animado.

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