Nádia Junqueira
Catira, congada, caixeiras, pastorinhas, folias, violeiros, tambor de crioulas, coco. Grupos de cultura tradicional da Chapada e de todo o Brasil passam no palco desse Encontro de Culturas mostrando um pouco do som e da vivência de sua música. Um pouco porque festival significa apresentar em uma hora, no máximo, uma mostra do que esses grupos vivem o ano inteiro, há décadas. Diferente de outros artistas e grupos musicais, aqueles que trabalham com música tradicional expressam uma cultura regional, o que significa mais do que um ritmo, um canto, um som. Está ligado a religiosidades, crenças, rituais, família, festejos e agradecimentos.
É o caso, por exemplo, do Tambor de Crioula do Quilombola Santa Rosa dos Pretos (Maranhão) que se apresentou ontem (28) no festival. Há 300 anos mulheres e homens misturam ritmos africanos em danças, cantos e percussão comemorando a solidariedade, irmandade e expressando a resistência dos negros. É o que diz Hellen Jacqueline Pires Belfort, uma das mulheres do grupo. Segue a tradição os homens puxarem os cantos e percussão e as mulheres dançarem a Punga, dando umbigadas, com suas saias floridas. É a quarta vez que se apresentam no festival.
Como nos terreiros, tudo se repete no chão de terra de São Jorge com turistas de todos os cantos se entregando ao ritmo africano. Mas lá no Maranhão, o Tambor de Crioula é mais do que isso. A religiosidade se relaciona à manifestação musical no festejo a São Benedito. Jacqueline conta como é esse ritual. “Fazemos uma promessa. Por exemplo, o filho está doente. Então fazemos tambor de crioula assim que ele se recupera”, diz Jacqueline. Ela conta, ainda, que também fazem tambor de crioula nos festejos ao Divino Espírito Santo, Nossa Senhora da Conceição e Santana.
Da platéia
Na noite de ontem (28), despretensiosamente, os violeiros Noel Andrade, Pereira da Viola, Paulo Freire e Dércio Marques conseguiram levar para o palco um pouco mais do que a musicalidade que tocam por aí. Pela primeira vez todos juntos no palco, sem qualquer ensaio, os violeiros pareciam estar na varanda de uma casa na beira do rio, bebendo cachaça. À vontade, os violeiros contaram causos, desafiaram um ao outro no canto e no braço (da viola) e tocaram modas religiosas e tradicionais. O resultado não poderia ser diferente: um público que não se desligava do palco, dando risadas, cantando e dançando juntos.
Melina Borges, 22, saiu de Goiânia há três anos para estudar Psicologia em São Paulo. Criada ouvindo viola, a estudante se emocionou durante o show. “Isso aqui é minha cultura, é uma coisa que sinto no peito. Como estou fora de Goiás e aí ouço isso agora, me dá um sentimento de pertencimento”, declarou Melina que trouxe para Goiás o namorado paulista Bruno Cricenti. É a primeira vez de Bruno no cerrado que, até então, só tinha visto uma roda de viola na TV e de ouvir a mãe e o tio falarem. “Isso é muito brasileiro. Não tenho muito contato, mas acho muito bonito. Cultura musical brasileira é gigantesca e fico com mais vontade de conhecer”.
Fonte e semente
O mineiro Noel Andrade conta que o que aconteceu no palco é o mundo do violeiro e tudo deu certo porque eles se conhecem há tempos através da cultura popular. “Nossa função é essa: beber na fonte e plantar semente”, disse o violeiro que resume cultura popular a canções de oração, brincadeira e criação. O violeiro afirma que esse trabalho, dos violeiros, diz respeito à preservação. “Da alma e do povo brasileiro. Como índios, guardamos as sementes e as enterramos quando mais o mundo precisa”, declara.
Para Pereira da Viola, o sucesso no palco vem da irmandade dos violeiros fora de lá. “Comungamos um do trabalho do outro. É o que Dércio (Marques) prega”, revela. A missão do violeiro, de acordo com Pereira, é preservar a identidade e história da viola. “Ela viu os índios serem massacrados, os negros espancados, e por isso, os violeiros sempre gritaram por justiça”. Por outro lado, ele acredita que o processo de preservação é natural e que a cultura popular é dinâmica por se transformar e se adequar aos tempos contemporâneos de forma natural.
“A cultura popular está sempre aí. O que a gente faz é buscar dar visibilidade”, afirma Pereira reforçando a importância do Encontro de Culturas de divulgar de forma digna uma cultura que se perde num mundo em que o lúdico e a criatividade são suprimidos.