Goiânia – O maior erro que podemos cometer é analisar a obra de alguém que marcou seu tempo com a cabeça de hoje. Por exemplo, lendo uma vez um artigo de Hélio Schwartsman na Folha de São Paulo, vi o quanto a obra isolada de seu tempo pode ser questionável. Observe essa frase: “Não sou nem nunca fui favorável a promover a igualdade social e política das raças branca e negra… há uma diferença física entre as raças que, acredito, sempre as impedirá de viver juntas como iguais em termos sociais e políticos. E eu, como qualquer outro homem, sou a favor de que os brancos mantenham a posição de superioridade”. É de embrulhar o estômago, certo? O que surpreende é que saiu da boca de Abraham Lincoln, presidente dos EUA que travou uma guerra com sulistas para acabar com a escravidão naquele país. Ou seja, separar o homem de seu momento histórico leva a equívocos enormes. Assim avalio a obra de Oscar Niemeyer: genial para o século XX, questionável nos dias atuais.
Não tenho estofo algum para falar de arquitetura. Por isso, sigo a opinião de quem entende. Se todos os caras que acho geniais dizem que Niemeyer é genial, não tem como eu pensar o contrário. Agora, se me perguntarem se gosto do seu trabalho, a resposta é negativa. Sou da turma dos “Adultos do Ano 2000”, termo pelo qual foram batizados os nascidos em 1979. Minha vida barbada se dará inteira no século XXI. Logo, tenho uma perspectiva diferente de cidade da de Niemeyer. Eu gosto de verde, de andar a pé para resolver as demandas do dia a dia, de bosque, de mercearia da esquina, de café ou boteco com mesas na calçada, de esquina, gosto de vida. As esplanadas de concreto me deprimem. Por isso não curto o trabalho do arquiteto brasileiro mais reverenciado da história que faleceu ontem.
Toda vez que preciso ir a Brasília, a tristeza toma conta do meu ser. Já tive possibilidades de morar lá. Refleti e neguei os convites. Não dou conta da lógica daquela cidade. Ela foi toda pensada para o concreto e automóvel: dois símbolos do progresso e modernidade do século passado e referenciais ultrapassados para o atual. Nossa capital nacional não é um local para andar a pé, não tem sombra, não tem formas de mobilidade alternativa, não tem o que comumente chamo de astral. Foi feita no paradigma do século XX e, sob essa perspectiva, todos dizem que é fantástica. Ou seja, uma obra datada. Não tinha como Niemeyer prever a enxurrada de veículos que iríamos ter gerando congestionamentos monstruosos e problemas sérios de estacionamento. Nem os problemas decorrentes do aquecimento global gerados pela ausência de cobertura verde. Por isso a obra dele é limitada ao seu tempo.
Outro exemplo é o do nosso Centro Cultural Oscar Niemeyer. Mesmo com a bela vista de Goiânia que o local apresenta, andar naquela esplanada de concreto sem uma mísera árvore não é prazeroso. O sol do cerrado é mais forte do que a contemplação da beleza da obra do arquiteto. Prefiro muito mais a sombra as aprazíveis mangueiras do Centro Cultural Martim Cererê do que a imponência cimentada do espaço da GO-020. Repito: questão de estilo, nada mais.
Independente disso, é mais que justo enaltecer a memória desse brasileiro que nos orgulha, que está no panteão dos grandes nomes nascidos nessa terra. Mais uma coisa, 105 anos de vida mandando ver no cigarro e charuto por décadas não é para qualquer um. Niemeyer, mito da arquitetura e também exemplo vida loka a ser exaltado.
Valeu, Niemeyer!