Goiânia – No meio do corre que é a manhã de minha (toda) família para arrumar tudo, levar os filhos na escola e ainda chegar no horário certo de trabalho, a televisão fica ligada em um telejornal. Enquanto organizamos o início de um novo dia, as notícias rolam e nos informam a respeito do mundo. Hoje, passaram uma matéria sobre a verticalização de Anápolis. Em pouquíssimo tempo, dobrou o número de condomínios verticais na cidade. Arrumando a mochila de nossa filhota, minha mulher disse sem pestanejar: “estão piorando o que já é ruim”. Só me coube rir da espontaneidade do comentário.
Na hora entendi do que ela estava falando. Toda vez que vamos a Anápolis, nos impressiona como a cidade cresceu sem nenhum controle e organização. O trânsito é o sintoma mais evidente dessa falta de planejamento. Não é razoável que uma população ainda pequena, se colocarmos em perspectiva frente às grandes metrópoles brasileiras, conviva com problemas tão sérios. Compreendi automaticamente a frase espontânea de minha mulher e parei para pensar no quanto é comum piorarmos aquilo que já é ruim.
Tenho a mesma sensação toda vez que cruzo o Setor Bueno. Os espigões não param de brotar no bairro que não conta com logística suficiente para receber tanta gente. Não precisa ser um grande urbanista para perceber que as estreitas vias que começam com T não foram pensadas para suportar aquele tanto de moradores, aquele tanto de comércio, aquele tanto de serviços que são oferecidos no bairro. O reflexo mais ululante disso é que comumente o morador do Bueno já enfrenta seu primeiro congestionamento ao sair da garagem de seu prédio. E continuam verticalizando o bairro de forma ostensiva. Ou seja, piorando o que já é ruim.
Sei da necessidade estratégica da verticalização para uma cidade. A concentração das pessoas favorece uma racionalidade na oferta de serviços por parte do setor público (coleta de lixo, água, esgoto…) que ficaria complicada sem os prédios. Contudo, o que percebemos é que a verticalização não vem acompanhada de um planejamento para a manutenção da qualidade de vida de quem vai morar ali. Erguem vários edifícios um ao lado do outro, mas as vias pensadas para receber uma família por lote, passam a ter 50 ou 60 famílias no mesmo lote. A tubulação de água e esgoto dimensionada para atender um número determinado de pessoas terá que dar conta de 10, 20 ou 30 vezes mais. Mesmo assim, seguimos adiante com a verticalização. Continuamos piorando o que já é ruim.