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Para que fingimos orgasmo?

02.04.2015 - 09:20:41
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(Foto: 
Alexandre Cavarzan)

Muita gente deve ter lido uma notícia que circulou recentemente sobre a quantidade alarmante de mulheres que fingem orgasmo. Segundo uma pesquisa encomendada pela revista Cosmopolitan e veiculada em folhetins mundo afora, 67% do universo feminino já dissimularam ver estrelas numa relação sexual. Mais da metade, é isso mesmo.

 
O levantamento ouviu 2,3 mil mulheres, que apontaram como principal motivo para o fingimento a intenção de fazer o parceiro se sentir bem ou poupar os sentimentos dele (28%). Outra fatia de entrevistadas disse mentir sob o escopo de agilizar o término da transa, após perceber que não atingiria o orgasmo (27%). No total, 42% revelaram esses dois motivos citados. Apenas 3% apontaram outras razões.
 
Os resultados da pesquisa são chocantes? São. Mas mais impressionante é constatar que até hoje a maioria dos homens não sabe, ou não quer, se esforçar para que a mulher atinja o ápice de prazer durante a transa. Após vários séculos de experiência humana no planeta, que tanto nos ensinou sobre a condição natural do sexo entre espécies, nos deparamos com o absurdo atestado pela pesquisa da Cosmopolitan – e também pelas reclamações sempre presentes no boca a boca feminino.
 
Quer dizer que não aprendemos nada com a quebra de paradigmas da Roma Antiga ou com, pelo menos, 17 séculos de Kama Sutra disponível às mãos? Após centenas e centenas de anos, estamos recuando sexualmente? Tornando-nos conservadores egocêntricos preocupados apenas com nosso prazer individual?
 
Não vamos longe. A internet e a infinita gama de informações que disponibiliza sobre quaisquer assuntos está aí, acessível a quase todo mundo. E o que fazemos com esse benefício, além de ignorá-lo? Em se tratando de sexo, procuramos em ferramentas virtuais imagens, vídeos e textos que nos despertem excitação, raramente nos atendo ao aprendizado de experiências alheias.
 
Eu não me espantaria se outra pesquisa apontasse que 99% dos homens acreditam que a parceira está tendo um orgasmo, quando na realidade ali se testa seu talento cênico. É raro, raríssimo, um cara sacar que se trata de fingimento. E esse comportamento desencadeia outra excentricidade dispensável, a fatídica pergunta à parceira: “você gozou?”.
 
Ora bolas. O quanto essa insensibilidade é brochante eu não consigo mensurar. Para esse tipo de desatitude só cabe resposta na mesma tenacidade: não. Se eu tivesse gozado, você não precisaria perguntar, não é mesmo?
 
Mas vamos voltar à Cosmopolitan e ao teatro camanístico. Vejo os números dessa pesquisa sob dois motivadores: o machismo sociocultural, que não é apenas ocidental, vale frisar, e o tratamento de tabu dispensando ao sexo.
 
Nos comportamos, na era globalizada e sem fronteiras, como bebês em fraldas satisfeitos por engatinhar e sem pretensão alguma de levantar as pernas para andarmos com nossos próprios pés. Se eu gozo, está tudo certo, para que vou me preocupar com minha parceira? Ela que se vire, ela que finja. E, então, o que fazemos? Fingimos.

O problema é que, já que fingimos, não podemos transferir aos homens toda a culpa pelo fracasso. Esse filho é também nosso, mulheres. Pelo que mostra a pesquisa, ainda carregamos conosco resquícios de submissão e complexo de inferioridade entre gêneros. Fingimos para fazer o parceiro se sentir bem ou para acelerar a transa! Quanto pensamento absurdo. Em todas as razões apontadas, nós compactuamos com a ausência de prazer e corroboramos para que o status quo se mantenha.

 
O dolo é da herança machista de nossa cultura? Em grande parte, sim. Mas também é resultado do nosso próprio preconceito e comodismo. Estamos conscientemente presas a um modelo sexual arcaico e discriminatório, que nos impede de virar a cama, o colchão, a mesa para evidenciarmos nossos gostos e preferências. A impressão que fica é a de que esquecemos que não vivemos em regime escravocrata. Vale lembrar que deve caber a nós, em primeiro lugar, a defesa de mentalidade mais igualitária e menos preconceituosa. Bom, esse é um ponto. A outra parte compete à mudança comportamental masculina.
 
Nesse caso, o primeiro passo é compreender a intenção do cara e separar gregos de troianos. Homens que nos levam a fingir orgasmo são tão desinteressantes quanto os que acreditam no nosso fingimento. Admiro e respeito o homem que se esforça para compreender os desejos femininos. Pesquisa, estuda, tira dúvidas com amigas, conversa com a parceira e não tem vergonha de dizer que quer aprender a transar do jeito que a satisfaça. Humildade para reconhecer o corpo feminino como território complexo é fundamental.
 
Desempenho também. E por isso não me resigno em afirmar: extremos são sempre horripilantes. Monstros do armário, brinquedos assassinos, bichos do pântano, teletubies. Show de horrores. Por favor, não. Quem goza nos primeiros cinco minutos – a não ser por algum distúrbio de saúde – é tão egoísta e decepcionante quanto quem nunca atinge o orgasmo, porque se preocupa unicamente em apresentar a interminável performance digna de filme pornô – de quinta categoria.
 
Se no sexo vale tudo, ou quase tudo, vale inclusive o essencial: aprender a fazer. Como diz um ditado popular, para que a transa seja boa a ambos é preciso que a vergonha fique no chão junto às roupas íntimas. Portanto, homens e mulheres, ousem, sejam criativos, dialoguem e peçam feedback. E não se sintam humilhados quando o retorno for negativo. Encarem como um empurrãozinho para que as próximas vezes sejam melhores. O que não vale é se contentarem com uma equação que nunca soma ou multiplica. Não há fingimento que perdure em constante subtração.
 
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por Sarah Mohn

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