Ontem tive uma oportunidade interessante para quebrar um monte de preconceitos que habitavam minha cabeça. Fui convidado para participar do Circuito Brasileiro de Degustação. Por iniciativa do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), 21 vinícolas juntaram as forças para mostrar a qualidade da bebida dos deuses feita em terras tupiniquins. O resultado foi para lá de satisfatório.
O vinho brasileiro vai além dos nossos espumantes, já reconhecidos como de elevada estirpe por meio mundo. As boas surpresas nos atacam de todos os lados. Tinto, rosé ou branco. E como é bom ser surpreendido com uma taça nas mãos… Fiz um tour considerável por várias vinícolas, experimentando diferentes possibilidades.
Por exemplo, tenho uma paixão pela uva tannat, em especial as bem adaptadas ao solo uruguaio. Não é que experimentei um brasileiro tannat de altíssimo nível? Não ficou devendo em nada na personalidade para os do nosso vizinho. Veja bem como as coisas são: confesso que caso me fosse ofertada uma garrafa nacional dessa uva, não toparia a empreitada. Puro preconceito besta. Vivendo e aprendendo…
Outra boa surpresa foi o vinho produzido em Goiás, mais precisamente na Serra dos Pirineus. Feito a partir da uva barbera, é um vinho ainda novo, mas já com personalidade. Para acompanhar um chocolate amargo, deve ficar divino. É provável que ele tenha uma evolução significativa dentro de dois ou três anos na garrafa e aí, acredito, atingirá seu esplendor. Vale ficar atento.
Também me surpreendi com a ousadia da Perini em elaborar um vinho focado na harmonização com a gastronomia japonesa. Não tive a oportunidade de experimentar o rosé de merlot e cabernet franc chamado Osaka, mas o pessoal de lá foi tão gentil que fez chegar em minhas mãos uma garrafa. Estou curiosíssimo para ver como essa combinação se desenvolverá.
Para mim, o mais legal dessa iniciativa foi a total desmistificação do vinho nacional. Na verdade, como em todos países, temos vinhos de excelente qualidade e outros direcionados ao público popular. Quanto mais horas de taça tivermos com exemplares da bandeira verde e amarela, mais ficaremos conhecedores das maravilhas de Baco de nossa terra.
Deixar o preconceito longe da mesa é o melhor a fazer. Só assim é possível aproveitar todas as potencialidades da bebida que até Jesus Cristo se fartava. Vinho bom é aquele se comunica com seu universo particular. E essa virtude não depende de localização geográfica. Depende da química entre você e a bebida. Comigo, bateu perfeitamente com os vinhos brasileiros que tive a chance de conhecer ontem.
Um brinde aos vinhos tupiniquins!