“Esse prato tem glúten?”. “Quantas calorias têm no total?”. “O suco é natural?”. “Açúcar normal, mascavo, adoçante ou sucralose?”. “Frito ou grelhado?”. “Feito no azeite ou no óleo?”. “Óleo de soja, canola, girassol, coco ou milho?”. “Qual a porcentagem de cacau no chocolate da sobremesa?”.
Valha-me Deus… Nunca foi tão difícil comer em toda a história da humanidade. Antes, nos atentávamos ao preço do prato. Hoje, precisamos prestar atenção em tantos detalhes que escolher algo para o almoço ficou mais complicado que fazer a declaração do Imposto de Renda. São tempos difíceis.
E pensar que só chegamos até aqui como humanidade por conta de nossa capacidade onívora. Carne? Beleza! Castanha? Beleza! Raiz? Beleza! Fruto? Beleza! Grão? Beleza! Folha? Beleza! Que maravilha é conseguir digerir alimentos tão variados!
Isso que nos permitiu habitarmos desde geleiras a desertos. Sair das cavernas ficou mais fácil sabendo que podemos comer um amplo leque de opções. Daí para sermos os reis do planeta, foi o desenrolar natural das coisas. Essa bela característica evolutiva que nos permitiu chegar agora na padaria e pedir um pedaço de bolo. Mas sem glúten. Para você ver que nem todo começo promissor termina em final feliz.
Tenho dúvidas se essa paranoia, às raias do histerismo, acerca de um prato de comida é realmente saudável. Pode até ser bom na teoria, mas viver com mais medo de uma porção de batata frita do que de uma hecatombe nuclear não me aparenta ser algo de pessoas, hum…, normais. Pode até fazer bem para o corpo, mas é horrível para a cabeça. A média entre essas duas forças não dá para ser considerada positiva, né?
E o pior é que esses modismos costumam ser passageiros. A gordura animal, até pouco tempo execrada por todos adeptos da geração saúde, agora é revista pelos estudos mais recentes e entendida como melhor para o ser humano do que a de origem vegetal. É o ciclo natural da ciência – toda verdade só existe para deixar de ser verdade amanhã.
Vai que daqui um tempo descobrem que o glúten é super legal para determinada função do corpo que não tínhamos conhecimento ainda? Lá vai todo mundo voltar a se empaturrar de glúten em tudo quanto é feirinha gastronômica que surge na cidade.
Esse vai e vem da ciência, que seguimos de um lado para o outro de forma bovina, é a coisa mais bonita do mundo. E trouxa de quem se deixa levar só por isso e, no meio do caminho, se esquece que viver e tirar onda nesse tempo mixuruca que passamos pela Terra. Isso sim é o mais importante.