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Pequena fábula

27.07.2013 - 09:05:34
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Zurique – Era uma vez um reino muito vasto e rico que despertava inveja e cobiça não só de seus próprios moradores como também dos reinos vizinhos. Apesar de suas terras serem férteis e renderem abundantes colheitas  – cereais, legumes e frutas de todas as espécies, seus rios estarem sempre cheios de peixes e suas matas plenas de caças, alguns moradores temiam um dia não ter o suficiente para viver e assim a ganância de alguns explorava a ingenuidade de outros. 
 
Porém, grandes e longas planícies e florestas, ainda quase desabitadas e altas montanhas cobertas de densas e belas matas, onde a vida selvagem cheias de mistérios e pássaros exóticos, despertavam a fantasia de todos que por ali passavam. Minas de ouro e pedras preciosas escondiam-se debaixo de suas terras e não era raro algum reino vizinho fazer planos secretos para conquistar um pouco daquelas terras tão ricas. Como as terras se perdiam de vista de tão vastas, ninguém ousava invadir com armas e bravos soldados aquele reino. Alguns preferiam aproximar-se de sua rainha através de intrigas e emissários enviados para ganhar sua simpatia.
 
Ao invés de um rei, esse reino era governado por uma rainha, amada por alguns e odiada por outros. Muitos anos antes outros reis haviam governado aquele reino, alguns com alguma sabedoria, outros com nenhuma. Alguns reis foram impiedosos e massacraram seus súditos com impostos e violentos soldados. Muitas vezes apenas para satisfazer intrigas de outros reinos que dessa forma  usurpavam importantes glebas de terras e reservas de ricos minérios. Outros tentaram cuidar bem de seus súditos, abrindo escolas, construindo estradas e casas para que pudessem viver e trabalhar tranquilamente e assim enriquecer ainda mais tão próspero reino.
 
Um dia, chegou ao reino o emissário de um país distante, sugerindo à rainha que organizasse um torneio entre os cavaleiros mais ágeis de toda a região. A rainha e seus ministros gostaram da idéia, pensando na grande festa que fariam, nos mercados  e feiras cheios  e na alegria do povo. Mandaram construir arenas enormes para milhares de visitantes. Prepararam estradas, portos e grandes alojamentos para os atletas. Para isso cortaram florestas e mais florestas, desviaram cursos de rios, derrubaram casas de simples camponeses, lavouras  e até mesmo antigos templos, tudo  para receber os ilustres visitantes de outros reinos.
 
O povo teve que cancelar seus trabalhos, o padeiro parou de fazer pão, o caçador deixou de caçar, o ferreiro deixou de moldar suas ferramentas e espadas,  o pastor deixou de levar as ovelhas pastarem, o lavrador deixou de lavrar a terra, e assim todos só se ocupavam de construir a maravilhosa cidade dos jogos. Com o tempo, começou a faltar pão e cereais, ferramentas e panos para as roupas e leite para o queijo. Os súditos, os comerciantes e alguns ministros começaram a reclamar. Mas o emissário do reino distante, que havia trazido a idéia do torneio, ofereceu à rainha buscar o que necessitassem nos reinos vizinhos até que o torneio terminasse. A rainha e seus ministros gostaram da idéia e mandaram buscar então o necessário para ser vendido à população.
 
No início todos ficaram satisfeitos, mas logo perceberam que os produtos que compravam dos vizinhos eram caros e piores do que o que produziam. O pastor quis suas ovelhas de volta, mas algumas tinham morrido, outras tinham sido vendidas. O padeiro quis fazer seus pães, mas não havia mais cereais, no lugar da sua plantação, haviam construído alojamentos. O ferreiro quis forjar o seu ferro, mas a mina havia sido alugada a outro reino em troca de ricos panos para forrarem as tendas  dos reis convidados e suas cortes.
 
Os trabalhadores que, apesar de não paravam mais de trabalhar, não encontravam mais seu pão nem seu descanso no final do dia, começaram a se revoltar e decidiram protestar. A rainha e seus ministros ficaram surpresos, afinal acreditavam que todos estavam contentes com a preparação daquele grande torneio. A rainha, que há muito tempo não andava pelas ruas do reino, não havia percebido a insatisfação do povo nem os preços altos que todos pagavam pelos produtos trazidos de longe. Ela apenas ouvia o que os ministros lhe contavam e as opiniões do emissário do reino distante, que sempre fazia elogios a sua sabedoria e beleza.
 
Os ministros, temendo perder seus privilégios, também não diziam a verdade, acreditando que se enviassem os soldados para conter a fúria da população, tudo se resolveria. Um dos ministros, muito amigo do emissário e que gozava de grandes regalias no palácio, disse à rainha que não se preocupasse com a revolta,  ele cuidaria pessoalmente de resolvê-la. Ele mandou seus soldados massacrarem os revoltosos, jogarem os mais rebeldes no calabouço e ordenou à guarda real do palácio saquear as casas dos camponeses e as lojas dos comerciantes para amedrontar a população. 
 
No dia da abertura do torneio, o ministro en tão negou-se a curvar-se diante da rainha, na frente de todos os convidados, e aproveitando o momento de surpresa, ordenou a seus fiéis soldados de prenderem a rainha no porão do palácio. Em seguida, sentou-se no trono, tendo ao seu lado, como convidado de honra, o rei do reino distante que havia sugerido a realização dos jogos, agora dono de grande parte das terras, florestas e rios do vasto reino em pagamento aos serviços prestados na preparação do magnífico torneio. Desde então, a alegria e a abundância desapareceram do reino outrora tão próspero.
 
Até o dia em que…
 
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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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