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Poetas do ano 2000

24.07.2012 - 10:58:42
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Zurique – Reencontrar velhos amigos  traz boas surpresas. Nos anos 80, quando era editora de cultura do Diário da Manhã , ainda muito jovem, me permiti alguns caprichos. Um deles foi simplesmente escolher alguns dos meus melhores amigos no Rio de Janeiro e em Goiânia, selecionar seus poemas e declará-los  – Os Poetas do Ano 2000! Uma página inteira, abrindo o segundo caderno.   
 
Na abertura da matéria dizia: "Eles têm três coisas em comum: menos de 30 anos, nenhum livro publicado e uma boa poesia. Podem  transformar-se nos poetas do ano 2000. Ou seja, no próximo século, serem os Quintanas e Drummonds da nossa estante. Depende deles e do destino."
 
Agora, 25 anos depois, recebo uma cópia dessa página e percebo – para minha alegria – que, na realidade, pouca coisa mudou. Todos continuam poetas, de uma forma ou de outra. Alguns publicaram seus livros, outros não, mas todos continuam ligados à escrita. 
 
Simone Magno participa como jornalista de grandes eventos literários e lançou “Avelã Pirata” e “ A lua depois do gravador”.  Mauro Santa Cecília, publicou 3 livros, ganhou prêmios e tornou- se um letrista recolhecido nacionalmente por versos como – “Eu te desejo não parar tão cedo, pois toda idade tem prazer e medo”. 
 
Anna Paula fundou uma editora, a dantes,  e elabora  livros tão lindos, tão únicos que são a própria materialização da poesia. Marilda Piccolo expandiu seus poemas para a vida, para os filhos, escreve crônicas  e pensa em um dia abrir a gaveta e soltar seus versos. Fernanda Magrini continua arriscando, riscando versos com a mesma urgência e precisão de quem corta o vento, o tempo ou o pulso das palavras. Não publica por teimosia e orgulho. 
 
E  finalmente, Cida Almeida que depois de lançar dois livros, continua desafiando e domando as palavras sem medo, como podem conferir em alguns trechos de “Escrever, o ato de viver o texto”, que gostaria de apresentar-lhes.
 
 
Conviver com palavras não é fácil, principalmente se a nossa neces­sidade de palavras for uma ânsia. Às vezes fica difícil saber se habitamos as palavras ou se são elas que nos habitam. 
Esse atrito cruel entre presença e fuga, controle e descontrole, com­preensão e incompreensão. Mas o melhor de tudo é que, por mais que doa, e dói muito, a coisa toda é muito prazerosa. Penso que escrever é nos atre­vermos, corajosamente, à arqueologia do espelho. 
Hoje entendo claramente a razão da minha resistência à publicação, mesmo na internet. Simplesmente medo, aversão às imperfeições do espe­lho, de confrontar com a lucidez cristalina da materialidade da palavra a obscuridade da intimidade mais funda aflorada na trama da nossa escrita, do nosso texto. 
Quando escrevemos nos tornamos um prato cheio para a voracidade do bom leitor, aquele que lê nas entrelinhas, nos silêncios, nos não-ditos, na intenção que se entortou no meio do caminho e contornou a pedra, a nossa fragilidade toda à flor da palavra que mais confirma quanto mais se nega. 
Às vezes penso que foi bom eu ter feito um corte cirúrgico na minha escrita em favor da vida. Ao invés de escrever, decidi viver. 
O texto ou a vida? A vida, sem dúvida. Mas a gente também descobre que a vida é a arte de melhorar o texto. 
 O poema nascendo da prosa…
Escrevo para tentar o mínimo de diálogo com o meu tempo, com a minha brevidade.
Escrevo como quem racha lenha seca para atirar na fornalha onde arderá o próprio corpo.
Escrevo porque acredito que a alma é uma construção laboriosamente humana.
Escrevo porque gosto da sensação do barro fresco entre os meus dedos.
Escrevo para suavizar as dores que sinto.
Escrevo porque não sei pintar, não levo o menor jeito para a música e por­que me frustra profundamente a consciência de não saber esculpir.
Escrevo para não endoidecer de tanto pensar. Definitivamente, não escrevo para ficar.
Escrevo para simplesmente ser.
Escrevo para esbarrar em Drummond, para ser cutucada desaforadamente por Mário de Andrade. E escrevo ainda para ranger meu humor desgosto­samente satisfeito de seguir Bandeira. 
Escrevo porque já tropecei demais. E descobri com Mário de Andrade que escrever é um soberbo tropeção!
Escrevo para embarcar clandestinamente, com aquela preferência inarredá­vel pelas portas secretas, no transatlântico dos delírios opiáceos de Álvaro de Campos, conhecer por dentro a engrenagem e ser triturada pela grande máquina de fazer doido, e quem sabe visitar a aldeia de Alberto Caeiro e antes do fim da viagem escapulir ao ideário de arte de Ricardo Reis. E an­tes de abandonar o navio, que eu erre muito, e bata atabalhoadamente na cabine atormentada de Bernardo Soares. E que prove o fel eterno do seu desassossego, uma gotinha que me estrague o mais leve contentamento e que eu siga contentemente descontente a escrever. 
Escrevo por inveja de escalar a esculpida pedra dos grandes textos e vou cultivando em mim a delicada flor sintética das leituras, a que nunca mur­cha. Escrevo para ouvir a minha própria voz como uma condenação de Eco, a ninfa, no breu da caverna em que ainda rasteja a nossa precária hu­manidade. 
Escrevo porque a vida é um acontecimento e fui alfabetizada com ouvido cativo de ouvir as histórias de meu pai. Escrevo para não perder o encanto de sua voz na minha alma. Escrevo para nunca esquecer a profundidade silenciosa do afeto da minha mãe. 
Escrevo para repetir a gratuidade da infância, trocar brinquedos e peque­nas maldades que não fazem mal a ninguém. 
Escrevo para evaporar, para gastar o lápis, secar a tinta da caneta, ir até o fim do caderno e lá chegando colocar ponto final, mas por dentro mal con­tendo aquele desejo de cravar: e foram felizes para sempre. 
Escrevo pensando que um dia ficarei esperta como Clarice que soube co­meçar e terminar sua história, com uma primorosa lição: começou depois de algum inusitado começo não escrito com ponto e vírgula (;) e fez do fim um fim sem fim e a minha imaginação continua depois daqueles dois pon­tos (:), concretamente poéticos, uma carinha invertida zombando de mim. 
Escrevo para desfiar um rosário de bobagens pensamenteadas. E porque acreditei na ternurinha angelical de Quintana sussurrando no meu ouvido que com minhas bobagens poderia fazer poesia.
Escrevo para ser instigada por quem desgoste do que escrevo e devolve o troco. 
Escrevo para ter fé de que dias melhores virão.
Escrevo para ter vontade de atravessar a rua e caminhar anonimamente ao lado do rapaz que conta uma história que me interessa muito, como se fosse a coisa mais importante do mundo. Na confusão da cidade perdida os que conversam me ignoram e eu sigo a narrativa banal porque sou voyeuse de palavras. 
Escrevo para habitar a tenda de Sherazade e para dominar a fúria de morte do sultão insano que mora comigo.
Escrevo para sonhar com o futuro. E porque Júlio Verne era mais esperto que os cientistas e sabia dar vida às coisas que aconteceriam no futuro do meu tempo, no prazeroso aqui e agora. 
Escrevo porque a vida é um drama e eu preciso do sossego do cantinho espremido da página de um livro, mesmo que imaginário. 
Escrevo porque qualquer página em branco, mesmo que seja a tela do com­putador, me dá uma fissura danada. 
Escrevo porque Shakespeare e Machado já fizeram o universal. Esculpiram com palavras os grandes dilemas dos nossos ossos existenciais. Minguada e particularíssima, vou pela calçada na manhãzinha escassa do meu coração matutando minha escrita torta de pensamento torto na linha errada. Mas divinamente minha! 
Escrevo porque gosto de Cecília, de Adélia, de Elisa, de Lygia, de Clarice, de Raquel, de Hilda, de Ana C., de Virgínia, das Emilys… E senti falta do poder da linha e da agulha naquelas lombadas douradas dos livros que vivem na minha biblioteca. 
Escrevo porque em Platiplanto tenho lugar cativo na arquibancada da are­na para o espetáculo dos cavalinhos de José J. Veiga. E foi tão bom chegar lá depois da estrada de tijolos amarelos e das maravilhas do mundo de Alice. 
Escrevo porque achava lindo o texto do meu amigo Magno Medeiros e suas palavras me ensinaram a ouvir o camelo no infinito de música.
Escrevo porque um dia cavalguei com o enigmático dândi Hugo de Carva­lho Ramos, que em tudo destoava do sertão, mas era um ser dos ermos e gerais nas trilhas batidas das tropas e boiadas que cruzavam o além-Parana­íba. A mesma travessia de meu avô e de nossas almas. Oh! Escrevo porque Hugo continua pulando no meu peito com seus diabinhos ensandecidos para saber o nome dos meus bois.
 
Escrevo porque no meio do caminho havia um Rosa e uma travessia difícil para descobrir o sertão da minha alma. 
Escrevo porque Riobaldo acordou em mim uma voz profunda, que veio do barro e aspira ao pó como destino, e me fez fechar, por vários anos, Grande Sertão: Veredas. Temi, depois daquela leitura, nunca mais escrever uma linha. Hoje, a janela é ampla e a cadeira predileta de Caeiro é o meu mais profano desejo na brisa da varanda de Riobaldo. Dias de Diadorim, sempre por perto, cego de amor e de ódio, um redemoinho na paisagem de dentro. 
Escrevo porque tive um dia bom. Escrevo porque tive um dia ruim. Escrevo porque tive um dia mais ou menos. Escrevo pela força do hábito. 
Escrevo essencialmente porque me dói escrever e também me dói não escrever. 
Escrevo descaradamente, sem inspiração, sem a menor crença na transpi­ração. 
Escrevo para não me largar de mão. Escrevo para não deixar pra lá.
Escrevo porque sou osso duro de roer.
Escrevo porque gosto de seduzir. 
Escrevo porque escuto mais do que devo e devo mais do que escrevo.
Escrevo porque alguém me liga e me desafia. 
Escrevo com prazer redobrado porque já disseram que escrevo “bem de­mais para uma mulher”. Escrevo porque é melhor ouvir absurdos do que ser surda e poder revidar com o estilo da minha melhor escrita as bofetadas. 
Escrevo porque não aguentava a pobreza de texto do meu primeiro namorado, que não sobreviveu ao primeiro texto.
Escrevo porque vivi muitos amores platônicos. E todos tinham belíssimos textos.
Escrevo para tocar o mundo. Escrevo para futricar dores caladas. Escrevo para ouvir a voz dos calados. 
Escrevo para transformar dor em flor. 
Escrevo com a humildade da primeira vez que peguei num lápis e rabisquei conscientemente a primeira letra. Escrevo para rabiscar por cima, nunca apagar.
Escrevo para tentar me ver diferente. 
Escrevo para que me vejam no traço comum das mulheres do mundo, de todas as mulheres do mundo. 
Escrevo porque amei a voz de Jeanne Moreau. E desejei o meu melhor texto ganhando alma na interpretação dela.
Escrevo para perder a chave. E não quero encontrar nada. 
Escrevo porque perdi muito tempo.
Escrevo porque a eternidade pode estar ali depois da esquina. 
Escrevo porque não tenho certeza de nada. 
Escrevo porque não quero nada mesmo. 
Escrevo porque amo encher gavetas e ver os papéis amarelecerem, porque adoro o amarelo das antiguidades, principalmente na superfície do papel. 
Escrevo porque adorava receber cartas e mais ainda de respondê-las. 
Escrevo porque o mundo é cheio de estímulos e eu sou um terminal ner­voso. 
 
Escrevo porque penso melhor escrevendo. Escrevo para ser prosaicamente um texto fácil. 
Escrevo sem nobreza de sentimentos. Jamais criaria uma teoria amorosa do texto, como fez Mário de Andrade. Nem penso na humanidade, muito menos no amor à humanidade. Às favas com as pretensões! Escrevo para manter a minha incoerência. 
Escrevo para esquadrinhar o espelho, para quebrá-lo, triturá-lo em mil pe­dacinhos, e mesmo assim, me reconhecer inteira nas minúsculas partes. 
Escrevo para amar melhor e me amar mais ao longo de um longo dia. 
Escrevo para encontrar a sensualidade da noite e amanhecer o dia de bom humor. 
 
Escrevo. Escrevo. Escrevo. 
Escavo. Escavo. Escavo. 
A pedra, a pedra, a pedra. 
Escrevo porque a pedra existe, porque é impossível contorná-la e só consi­go lidar com ela escrevendo. 
Escrevo porque a pedra me habita e de tanto tremê-la não a temo mais. 
Escrevo quase acreditando que posso transformar dor em flor. 
Escrevo para ser varrida pelas palavras. 
Escrevo para que tudo que vejo e sinto seja síntese da flor, a pétala e a dor. 
Escrevo para que tudo que vejo e minto seja síntese da pedra, a pétala, a flor e a dor. 
Escrevo na pedra e com a pedra. 
Escrevo para a pedra, a minha antítese.
Escrevo e esqueço em igual medida, porque esqueço para escrever e escre­vo para lembrar. A ciranda da pedra me devora.
É só o que sei. Escrevo! 
 
Cida Almeida
 
 
 
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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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