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Por que as máscaras não caem?

04.07.2020 - 14:06:59
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Goiânia – Há máscaras para além das que se usam para proteger de doenças. São máscaras profundas, metafóricas, usadas no campo do psiquismo para ocultar algo, preencher alguma ausência profunda dentro dentro de nós.
 
Se olharmos para a palavra “máscara”, ela vem do árabe e significa algo como “o cara mais ridículo”, “o palhaço”. Em inglês, “mascara” (sem acento) é um cosmético, uma maquiagem. E a palavra máscara em grego, “prosopon”, dá origem ao termo persona ou até personagem. Então, podemos pensar, a máscara é um artifício falso que não tem a ver com quem realmente somos. E, por medo de nos entendermos, de nos descobrirmos, criamos essa personagem, colocamos a maquiagem, pomos a máscara.
 
Em outras palavras, quando a pessoa não se conecta ao que chamo de “essência”, enxerga um vazio e tenta preenchê-lo com a primeira coisa que encontra! Pode ser a presidência de um órgão, a liderança de um grupo, pode ser até a sindicância de um prédio… qualquer elemento que lhe permita sentir algo. Se não sente o que importa, alguma coisa precisa sentir, não é? E, neste caso, coloca, sobre si, a máscara do poder, escondendo sua identidade secreta (tão secreta que até ela desconhece).
 
Atenção, não falo em colocarmos algo em nós para interpretar papéis sociais diferentes. Falo daquela necessidade de amarrar com tanta força a máscara que impede que se perceba quem realmente somos! Isso é uma doença que denominaria de sede de poder.
 
Ora, se pensarmos em poder, o que isso significa? Poder é o que eu preciso para “poder” fazer algo, não é mesmo? O poder é um instrumento, uma ferramenta, um meio, diria Viktor Frankl, para alcançar um fim. Mas a pessoa desconhece o fim e transforma seu propósito em manter ou ter mais poder. Amarra mais fortemente sua máscara para não cair!
 
E seus seguidores também, sem se compreender e achando que o mundo foi esvaziado por alguma força externa fora de sua responsabilidade, temem seu próprio vazio, ainda que não o saibam, e tomam essa sede de poder como natural. Defendem sem perceber seus erros, aceitam a agressividade explícita e acusam outros, que deles discordam, de violência. O outro pode ser agressivo, calmo, apático ou até usar metáforas, mas é visto como o violento do bando que merece ser extirpado como um câncer corrosivo. Quem padece da vontade de poder não compreende comunicação clara nem metafórica.
 
Enxergam também aquele que não busca poder como ameaça, considerando quem busca um sentido para a vida, algo pelo qual valha a pena viver, como dotado de loucura ou ilusão. Frankl assume que vivemos ou para oferecer algo ao mundo, ou por amor a uma causa ou para podermos enfrentar o sofrimento com a cabeça erguida. Tudo isso nos permite irmos além de nós mesmos e, consequentemente, de nossos grupos de origem. Mas o primeiro é visto como exibido, o segundo como defensor de causas “ridículas” (pode ser justiça, equidade, direito a usar elevador… escolha você, leitor, o contexto que preferir) e o terceiro um perigoso louco sádico. Quem busca poder, sente ameaça por todas as partes, porque acha (ainda que inconscientemente) que o poder pode lhe ser retirado a qualquer momento.
 
A maioria das pessoas nem percebe essas ameaças. Uma minoria percebe e não fala. Não fala para não “estragar o clima”, não fala “para não ser o chato”. O sedento de poder vive da benevolência do silencioso. E sobra uma mísera minoria que é esmagada, sob a falaciosa crença que democracia é medida pelo respeito às maiorias, esquecendo que a maturidade de uma democracia é como se lida com aqueles que não têm poder por serem minoria, fragilizados, ou em dificuldades.
 
E por tudo isso, insisto em dizer. Máscaras não caem por cair, nem caem com facilidade ou por acasos. Melhor, as máscaras não caem! Ponto! A maquiagem não sai a não ser que eu a tire, o personagem só acaba quando eu aceito que termine o show, e a máscara… ela só sai se eu a retirar.
 
E, para isso, eu preciso coragem. Não a coragem de gritar com o diferente, expulsar o outro, vangloriar o ataque (essas, na verdade, são as artimanhas dos medrosos). A coragem só é real quando eu tenho coragem de tirar a máscara ou tirar a maquiagem para me olhar no espelho, largar a personagem e abraçar minha personalidade, sempre imperfeita e, por isso, capaz de melhorar e levar avante um mundo em constante evolução.
 
A máscara só sai, se eu a retirar para assumir minha imperfeição. E, por isso mesmo, por ser imperfeito conseguirei mudar. Senão… as máscaras não caem!
 
Sam Cyrous (Instagram: sam.cyrous) é psicólogo (CRP 09/8178), logoterapeuta, psicoterapeuta de casais e família, storyteller, curador do TEDxGoiânia.
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por Sam Cyrous
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