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Por uma mente com lembranças

02.01.2012 - 17:39:53
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Nesse final de ano assisti pela enésima vez a um dos meus filmes favoritos. “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” me fisgou desde a primeira vez, não apenas pela bela interpretação dos protagonistas – Jim Carrey mostrando seu talento sem aquelas caretas chatas e Kate Winslet com seu carisma –, mas também pela história.

Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) formavam um casal que durante anos tentou fazer com que o relacionamento desse certo. Desiludida com o fracasso, Clementine resolve esquecer Joel para sempre e, para tanto, aceita se submeter a um tratamento experimental, que retira de sua memória os momentos vividos com ele.

Ao saber da atitude da ex, Joel entra em depressão, frustrado por ainda estar apaixonado por alguém que quer esquecê-lo. Decidido a superar a questão, ele também se submete ao tratamento experimental, mas desiste no meio do caminho e começa uma luta desesperada para preservar Clementine em sua memória.

Se ele consegue ou não esquecê-la, se os dois reatam ou não no final, não vou contar para não estragar a surpresa de quem quiser assistir ao filme. E também porque, na verdade, esse não é o cerne da questão. O tema central da obra, e muitas vezes também da vida real, é: como esquecer um grande amor?

Poucas coisas são tão doloridas quanto retirar da memória alguém que um dia já significou tanto. O relacionamento tem fim, mas as lembranças não. Você se lembra do outro desde a hora em que acorda, até quando vai comer, correr, trabalhar, estudar, sorrir, chorar ou deitar para dormir à noite.

Você fica impregnado do cheiro do outro. Fica imerso em recordações de um jeito que ele ou ela falava de tal coisa. Perde horas relembrando situações do cotidiano a dois, declarações de amor ou brigas. E constata, triste, que embora no relacionamento tenha havido um ponto final, no seu coração o que existe são reticências.

Para piorar, ainda vivemos num mundo onde não há mais lugar para a tristeza e o luto. Ninguém se permite vivenciar suas perdas e fracassos, chorar as próprias dores. Todo mundo é obrigado a se reerguer rapidamente, engolir a dor a seco e fazer a fila andar. Andar, não: correr na velocidade da luz.

Acontece que um grande amor não fica na fila. Ele tem direito a camarote vip. E um relacionamento, quando de fato é significativo e intenso, precisa de tempo para ter seu término elaborado, processado. Processo, aliás, é a palavra mais adequada para definir o período em que alguém deixa de amar outra pessoa.

Nascer é um processo. Crescer também, assim como atingir a maturidade e envelhecer. O mesmo acontece com o esquecimento de um grande amor. Passa-se por várias fases, até culminar no ponto final, onde quem tanto amamos torna-se uma pessoa cuja presença e afeto não são mais indispensáveis..

São fases doloridas, que incomodam como um espinho incrustado no peito. Mas necessárias, para que possamos compreender o que aconteceu e fazer melhor da próxima vez. Negar esse processo é negar também o que temos de mais humano: nossa capacidade de relembrar e ressignificar o que passou.

Se o relacionamento foi permeado de respeito, cumplicidade e afeto, as lembranças insistentes sinalizam que ainda pode haver algo muito precioso e raro, que não deve ser deixado para trás e merece ser resgatado. São o símbolo de que vale a pena tentar de novo, pois a força  e a alegria do que se viveu compensam o esforço.

Por outro lado, se o relacionamento foi marcado por traições, mentiras e humilhações, as recordações dos momentos tristes podem ajudar a mostrar que valemos muito mais do que imaginávamos e que merecemos distância do que nos faz mal, do que nos rebaixa e aniquila. As memórias podem reforçar nossa autoestima.

Há, ainda, lembranças de relacionamentos não terminaram por conflitos de temperamento nem por traições, mas por outras razões que a vida impõe e que são difíceis de serem gerenciadas. Nesse caso, recordar o que passou é uma forma de reconhecer que, ao contrário do que dizem os filmes de Hollywood, o amor nem sempre tem final feliz e é preciso aprender a lidar com a frustração.

Há quem diga que a memória é seletiva e que tendemos a recordar apenas os bons momentos. Mas se nos permitirmos vivenciar o processo do esquecimento de forma natural e plena, o que não foi bom também acabará vindo à tona e será visto de outra perspectiva, provavelmente mais realista e construtiva.

Assim como não se ama em vão, também não lembra em vão. Como dizia Sartre, “agora não importa mais o que fizeram contigo, mas o que vais fazer com o que fizeram contigo”. A mesma lembrança que corta e fere também pode servir de alerta e nos reerguer e impulsionar rumo ao que queremos de verdade.

Se você está passando por esse processo, espero que tenha força e coragem. Momentos de dor e angústia virão. Entretanto, a cada lembrança que você desenterrar do passado, outra conexão com o presente será feita e uma nova maneira de encarar o futuro poderá surgir. Afinal, como diz o refrão da música-tema do filme, “uma hora todo mundo tem que aprender”. 

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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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