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Prelúdio para o Terror

18.09.2017 - 11:51:24
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Goiânia – Um simples bate-papo em um grupo de cinéfilos do WhatsApp sobre filmes de terror, inspirado pela recente refilmagem de It – Uma Obra-Prima do Medo (1990) – ainda não vi a nova versão -, suscitou-me a vontade de proferir acerca deste gênero, que por vezes é incompreendido e vítima de pré-conceito. Um dos aspectos que me levam a crer nesta afirmação é a de que grande parte da cinefilia desconhece as origens e os grandes filmes que ajudaram a sedimentar o gênero em questão. É necessário frisar que a enxurrada de filmes medíocres reverbera de modo cada vez mais contundente e isso é, possivelmente, um dos fatores que podem influenciar a negligência em relação ao terror. Desde os primórdios do cinema, o gênero se demonstrou vívido revelando-se pela figura icônica de Georges Méliès com Le Manoir du Diable (1896).
 
Uma quantidade infindável de diretores essenciais transitou por este caminho, inclusive nomes que boa parte da cinefilia não se apercebe e que não são ligados ao terror. Manoel de Oliveira realizou O Convento (1995), uma obra cuja atmosfera confere uma ambientação que remete ao gênero por meio de uma sugestão a uma espécie de horror sobrenatural entremeada ao mistério. O Mundo é Culpado (1950), dirigido pela brilhante Ida Lupino, possivelmente a maior diretora do cinema, confere pinceladas de horror do mundo real mediante a violência perpetrada contra as mulheres, uma obra que deflagra um clima de horror muito mais acachapante do que muito filme atual. A Hora do Lobo (1968), do mestre Ingmar Bergman, cujos conflitos psicológicos dos personagens vem à tona à medida que um casal se muda para uma ilha afastada da sociedade merece destaque, bem como O Vampiro (1932), uma obra monumental de Carl Theodor Dreyer.
 
Quando o gênero é mencionado, invariavelmente cânones como George A. Romero, Alfred Hitchcock, Stanley Kubrick, Jacques Tourneur, Brian De Palma, John Carpenter, Martin Scorsese, David Cronenberg, Roman Polanski, Tod Browning, Michael Powell, Wes Craven, Tobe Hooper, Larry Cohen, José Mojica Marins, Mario Bava, Dario Argento, Lucio Fulci, Kaneto Shindô, Kiyoshi Kurosawa, dentre outros povoam o meu imaginário e o da cinefilia, assim como filmes de menor relevância como A Hora do Pesadelo (1984) e Sexta-Feira 13 (1980) que pertencem à minha memória afetiva e à de uma geração. Um dos melhores filmes não somente do terror, mas de todo o cinema é Prelúdio Para Matar (1975), de Dario Argento, um giallo, genêro literário e cinematográfico italiano que mescla suspense e terror de modo irretocável. Reza a lenda que quando o genial Alfred Hitchcock assistiu à referida obra, afirmou: “Esse jovem italiano está começando a me preocupar“. Não por menos, imagino que o grande mestre inglês do suspense deve ter reverenciado a obra do italiano após o término da sessão.
 
Dado o virtuosismo inerente ao diretor, Argento foi apelidado pela crítica como o Hitchcock italiano, o que pode ser justificado pelos pontos de contato entre suas obras, mas isso não o reduz a um mero imitador do mestre. Brian De Palma é, comumente, criticado por quem não percebe que sua arte transcende a de Hitchcock e, como em Argento, seus filmes são autorais ao ponto de se discernir claramente a genialidade contida em cada um dos diretores supracitados. O norte pode ser Hitchcock, mas tanto Argento quanto De Palma alçaram voos solos e cravaram como tatuagem seu nome na história.
 
Prelúdio Para Matar corrobora o exímio talento de Argento para a composição de planos subjetivos, uma marca indelével, bem como o domínio do espaço cênico, a utilização de violência gráfica regada a muito gore embalada pelo rock, além do uso de cores vibrantes que remetem à pintura tal o zelo na confecção de sua arte, que, provavelmente, deve sofrer de influência de Mario Bava, um grande esteta do cinema. Profondo Rosso é o título original, e o rosso significa vermelho. Esta cor é preponderante e confere um apelo incrível a película à medida que ela é representada em cena, seja por meio das paredes, cortinas ou do próprio sangue. Dario Argento parece um pintor desfilando todo o seu talento singular na composição de cenas e atinge uma beleza plástica que remonta a grandes estetas do cinema.
 
A cena inicial da película estabelece um vínculo com o fim à medida que a câmera expõe uma sala de uma casa, enquanto uma vitrola toca uma canção infantil. Há uma árvore de natal ao fundo. Aparentemente, uma tranquilidade é cortada pelo som emitido pelo equipamento que denota uma certa morbidez. Fora do enquadramento, presencia-se sombras projetadas na parede e o espectador, por meio de um grito exasperante, testemunha alguém sendo esfaqueado. Desta cena, irrompe um personagem com sapatos infantis e que se aproxima da faca que se encontra caída ao chão. Esta cena é crucial ao entendimento e se emergirá em determinado momento da película.
 
Posteriormente, a presença de Marcus ou Marc (David Hemmimgs), um compositor e pianista inglês estampa o filme. Após ministrar uma de suas aulas num conservatório em Roma e se apresentar em clube noturno com um amigo, a câmera passa a um evento que consiste em um Congresso Europeu de Parapsicologia. O espectador adentra ao recinto pela câmera subjetiva, na pele do assassino, açambarcando as cortinas vermelhas até se sentar em uma das poltronas na plateia. No palco, a médium Helga Ulman (Macha Méril) é apresentada. Antes de ministrar sua palestra, entra em choque através de convulsões e alerta sobre uma presença indesejada na plateia.
 
Marc e seu amigo Carlo (Gabriele Lavia) bebem, tranquilamente, quando, subitamente, o momento festivo é suplantado por um berro apavorante que rememora aquele do início do filme. Helga é assassinada, após o referido evento, em seu apartamento e a cantiga infantil do início vem novamente à tona de modo apavorante. O assassino desfere fortes golpes de cutelo e a presença das cores vibrantes é mais uma vez realçada pela lente do mestre. Marc corre em direção ao prédio e presencia o golpe fatal que faz com que o rosto de Helga atravesse a vidraça da janela com os cacos estilhaçados.
 
A partir daí, Marc se une, após prestar depoimento à polícia, a Gianna Brezzi (Daria Nicolodi), uma jornalista interessada no evento. Os dois partem em uma jornada febril em busca da identidade do assassino. O caminho traçado por eles leva a chave do enigma: uma das pinturas de arte moderna nos corredores do apartamento da médium, no exato local onde ela foi assassinada. A pintura é a solução para o mistério e emoldura a arte de Dario Argento, elevando-o à condição de grande realizador por meio de uma rebuscada construção fílmica e domínio irretocável dos elementos cinematográficos. Definitivamente, o terror não é um gênero menor e merece uma incursão, despida de pré-conceitos, em suas repletas obras retumbantes.
 
 

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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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