Nádia Junqueira
Já pensou em provar um risoto ou uma pizza de pequi, uma tapioca com buriti e depois tomar um sorvete de baru? O XI Encontro de Culturas Tradicionais dos Povos da Chapada está proporcionando essas experiências regionais gastronômicas com o I Encontro de Culturas Gastronômicas da Chapada dos Veadeiros. A intenção era ser um encontro dentro do outro. Mas a idéia foi boa e acabou ganhando mais atenção dos turistas do que o esperado.
Desde o dia 23 chefs renomados de todo o país dão oficinas diárias tendo em vista sempre a utilização dos frutos do cerrado, da produção local e a tradição gastronômica da região. Além disso, 35 restaurantes e lanchonetes de São Jorge e Alto Paraíso aceitaram o desafio de oferecer um prato especial aos turistas que atendesse à idéia do encontro. O sucesso do evento se deu com a grande participação diversificada nas oficinas e a intensa movimentação e comercialização dos itens da feira de produtos do cerrado.
Melissa Maurer, coordenadora desse encontro, credita o sucesso ao fato da gastronomia ser um importante fator cultural. “As receitas, ingredientes, sentimentos, tudo isso faz parte de um modo de ser de um povo”, justifica. Para a coordenadora, o evento é importante para valorizar a cultura da chapada, incentivar o uso dos produtos do cerrado que são poucos explorados e para fortalecer uma nova tendência de alimentação. Ela se refere à utilização de produtos orgânicos e valorização dos produtores locais. Ela também lembra do Senhor Waldomiro, que tem um rancho entre Alto Paraíso e São Jorge e oferece uma comida de tropeiros, dos viajantes de dezenas de anos atrás e compartilha dessa relíquia com turistas.
Roots-chique
Hoje à noite (29/7), a chef Andreia Varjão vai apresentar um prato exclusivo utilizando ingredientes do cerrado e toques contemporâneos. O desafio da chef foi criar algo gourmet utilizando elementos regionais. Dessa forma ela usou o frango, a manga, que é uma fruta que dá nas ruas de cidades como Brasília e Goiânia quase o ano todo, é barata, nutritiva e compôs um contraste com o sabor fresco do agrião e a sequidão do baru. Classificando o seu prato como roots-chique, Andreia dá o toque fino ao prato com o chutney de pequi. “Aí conseguimos vender glamour de forma simples”, classifica Andreia.
A chef, por outro lado, atenta para a dificuldade de se trabalhar com produtos do cerrado. “Não há estoque de baru ou pequi, por exemplo, e restaurantes precisam ter essas linhas de estoque. São frutos que não se produz, mas são sazonais.” Por outro lado, Andreia afirma que a valorização da produção do cerrado se dá em utilizar daquela regional, comercializando com pequenos produtores, dando preferência aos produtos orgânicos.
O Público
As oficinas de gastronomia que acontecem todos os dias do festival às 10h estão sempre cheias. O público, de acordo com Melissa, é variado. “São chefs de todo país, curiosos, donos de estabelecimentos”. Leandro Mattos, por exemplo, trabalha no restaurante Santo Cerrado como barista e participava de oficina nessa manhã (29) com o sommelier Rafael Sá para aprender dicas de apresentação de vinhos para os clientes.
Já Lúcia Chiyere trabalha no Encontro e aproveita para, paralelamente, participar das oficinas. Curiosa e interessada em gastronomia, apesar de amadora, freqüentou quase todas as oficinas oferecidas. “Elas estão diversificadas e criativas. Vi cozinha tradicional, experimental e contemporânea”, contou Lúcia. Ela defende que a idéia é uma oportunidade para movimentar a economia e valorizar cultura da região.