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Quando chega a hora de fazer coisas novas

12.01.2013 - 09:19:40
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Goiânia – Dez de janeiro. Minha avó completou 87 anos. “Faltam só três para 90”, comemorou esses dias quando a gente já anunciava que o aniversário dela vinha chegando. Viúva há 17 anos, é mãe de nove filhos e mais uns sobrinhos aqui e ali criados juntos em algum momento da vida (quem é da roça, sabe como funciona a coisa), avó de 26 netos (uma de coração e dois não mais vivos) e bisavó de onze (mais dois estão a caminho). São muitas pessoas para lhe dar amor, esbanjar admiração e respeito. Mas no dia-a-dia mesmo dessa senhora de quase 90 anos a companhia são os livros.

Agitadíssima, vovó, além de criar esse tanto de menino, costurava vestidos de casamento em Morrinhos, fazia doces, velas e dava aulas. Ainda depois dos 60 anos, tinha loja de tapetes e continuava ela mesma a costurar. A idade e o envelhecimento acabaram privando vovó de muitas atividades e habilidades. Mas a lucidez, essa permaneceu. E junto com ela, a capacidade de ler bem: tanto do ponto de vista físico quanto interpretativo. Eis que a senhorinha tornou-se uma devoradora de livros. 

Eles, hoje, são quem acompanham vovó em sua rotina. Em seu andador “modernoso” que tem um banquinho com guarda-trecos embaixo, sempre há sua caixa de remédios, um pente e um livro. Emprestei todos romances quanto haviam em minha biblioteca. De Graciliano Ramos a José de Alencar, Chico Buarque a livro de causos, de Machado de Assis a Bíblia. A leitura dela é intensa e rápida. Missão é lhe dar uns seis livros por semana.

Da última vez que estivemos na casa dela, próximo ao Natal disse ao meu pai. “Meu filho, agora que terminei os livros, vou ler o seu”. “Qual, mamãe?”, meu pai perguntou. “O seu, meu filho”. E então veio com a dissertação de mestrado do meu pai empoeirada. Vimos que a coisa é séria. A mocinha descobriu mesmo a leitura.   

Aos meus 23 anos assisto ao envelhecer da vovó aos 87 e a vida, paradoxalmente, ganhar tanto valor quando ela, aos poucos, se esvai. Vejo então que falta muita sabedoria e respeito a esse tipinho de sociedade que temos para valorizar a vida quando os fios brancos tomaram conta do cabelo e as rugas são as maiores provas de quem viveu.  Com toda a limitação que o envelhecimento trouxe à vovó, essa fase continua a ser a hora de fazer algo que ela nunca fez antes na vida. Cada vez mais vejo que envelhecer é justamente isso: fazer o que não deu para ser feito nas décadas anteriores. Há algo mais estimulante e aventureiro que isso?

Em julho o fêmur da vovó quebrou. Ela estava paradinha quando ele deu o grito de que já está velhinho. Ela caiu com tudo no chão e parou no hospital para uma cirurgia. Para alguém de 86 anos, qualquer cirurgia é arriscada, claro. Quando fui visitá-la e a vi naquela situação minhas pernas ficaram bambas. Dei um beijo na testa dela segurando o choro. Só me vinham questionamentos quase infantis existenciais ao vê-la naquela situação: por que ela precisa passar por isso?

Lembrei-me de que ela já havia levado tiro no peito e facadas de ladrão. Que já havia quebrado fêmur em outra ocasião e ficado deitada três meses e outros tantos na cadeira de rodas. Depois que aquele nó na garganta foi controlado, soltei meus lábios da testa dela preparando uma expressão positiva. Mas ela já me esperava com um sorriso muito menos preocupado que o meu. Ao invés de reclamar, ela disse. “Tô aqui mais uma vez, minha filha”, numa calmaria de quem entende de vida. De quem sabe que sofrer faz parte de viver.

Seguiram alguns dias de hospital, sem alguma reclamação. No quarto dia após a cirurgia, voltou sozinha para casa se apoiando no andador. Instrumento esse que ela hoje, seis meses depois, já ousa abandonar. Nem nessa situação ou em outra vi minha avó reclamar da vida. Ela recebe todas as adversidades e presentes da vida com a mesma sabedoria. Penso que foi isso que a trouxe tão longe e nos dá esperança de que vá mais longe ainda.

Com tanta gente de seu sangue, tantas pessoas que a amam e ela ama, nunca vi vovó dar uma crise de “pertencimento”. Penso que quem sabe receber e dar amor mesmo quando a pessoa está menos presente do que gostaria também faz a alma e coração mais leves e saudáveis. Aos onze anos meu pai saiu de casa para o seminário. Teve todo o apoio da vovó. “Ao menos assim ele fazia um curso”, me confessou recentemente justificando seu apoio. Sem condições de oferecer estudo superior ao filho, apoiou a saída de meu pai para se formar padre, sofreu calada e sem deixar que ele percebesse.

Quando vovó me contou recentemente sobre isso, entendi mais uma vez outro pedacinho de sua sabedoria. Ela não prendeu ninguém e sempre soube aproveitar a presença de cada um no tempo que a vida permitiu. Simplesmente porque ela sempre soube pensar na perspectiva do outro, por mais que isso custasse um pedaço do seu coração. E, paradoxalmente, ela sempre soube conviver consigo mesma e gozar de sua companhia. Até que em sua casinha só restasse ela, seus livros e as lembranças da vida que viveu com nobreza e dignidade.

Como quando pequena ainda acompanhou a mãe quando se separou de seu pai, enquanto os irmãos não deixaram a casa do meu bisavô. Era ali que estava a riqueza. Contudo, vovó não perdeu o vínculo e carinho com irmãos e pais. Morou com sua mãe até a morte leva-la daqui. Quando foi se casar, bateu à porta do pai para convidá-lo e pedir a benção. Ele quis então dar uma grande festa, como ao outro filho. “Minha mãe não tem condições de pagar essa festa. Ela vai se sentir constrangida. Não quero a festa, só quero sua presença”. Assim como não quis dinheiro algum do pai. Quem só tem orgulho ao se lembrar da vida que teve, não deve sofrer em sua própria companhia.   

Pouco depois da cirurgia ela estava em casa e meu pai foi acompanha-la até o quarto. Antes de dormir ela foi rezar e disse ao meu pai antes dele deixa-la a sós com sua fé. “Meu filho, todo dia eu rezo por todos vocês. Mas eu não rezo para vocês não terem dificuldades. Eu rezo para no fim tudo dar certo”. E a vida dela tem sido bem assim. Com dificuldades de todas as ordens. Com tudo dando certo ao fim. Aos 87 anos da Dona Diomar apenas agradeço sua sabedoria ter lhe trazido tão longe para eu poder partilhar uma vida dessas dignas de serem compartilhadas. Feliz aniversário, vovó!

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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