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Quando virei gente grande

19.03.2012 - 10:58:39
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Você se lembra do primeiro dia em que pisou na faculdade? Pois eu me lembro. Foi em 17 de março de 1993, ou seja, há exatos 19 anos. A lembrança não é fruto apenas da minha supermemória numérica. É que essa data marcou o início dos quatro anos mais transformadores e importantes da minha vida.
 
Na época eu tinha 17 anos e era uma burguesinha fútil, a típica pobre metida à besta. Minhas maiores razões de sofrimento eram, basicamente, saber que a mesada não daria para comprar as roupas de marca que eu queria, não poder ir para Disney ou Bariloche com as minhas amigas e ver o garoto que eu gostava me dar o fora. 
 
Embora não fôssemos ricos, investir em educação de qualidade sempre foi prioridade na minha casa. Fiz o ensino fundamental e o ensino médio em excelentes colégios, que, em sua maioria, eram freqüentados por alunos ricos. Não ter acesso ao que eles tinham despertou em mim um terrível sentimento de inferioridade.
 
Meu sonho era fazer Psicologia, que então só existia na Universidade Católica de Goiás (hoje PUC). Mas minha mãe, com seu pragmatismo de auditor fiscal da Receita, me deu o manual da Universidade Federal e disse que eu deveria escolher algum curso naquela instituição, pois faculdade particular ela não poderia pagar. 
 
Nunca sonhei ser jornalista nem pensei em fazer disso a minha profissão. Porém, levando em conta que eu odiava a área de exatas, não tinha afinidade com a de biológicas e adorava escrever, marquei Jornalismo no catálogo e entreguei para Deus. Quando soube da aprovação, senti um misto de alívio e medo.  
Como toda patricinha burguesa, me vesti para o primeiro dia de aula como se fosse para um megaevento, e acabei dando com os burros n’água ao conhecer meus colegas. Ninguém ali usava roupas de marca nem estava preocupado com isso. Andar de ônibus era a regra absoluta, não a exceção. 
 
Minha turma tinha muita gente mais velha, que já havia feito outro curso superior antes e cuja preocupação era aprender mais sobre a vida, conhecer a essência e não a aparência do mundo. Meus colegas queriam saber que livros eu havia lido, quais autores nacionais eram os meus prediletos, o quê eu pensava sobre a política brasileira. Diante da minha hesitação em responder, acabavam me obrigando a saber mais sobre literatura, história, sociologia, artes e atualidades. 
 
Até mesmo as festas eram diferentes. Lembro como se fosse ontem da primeira que fui no Centro de Convivência. Ao chegar, não havia som mecânico, mas uma veterana do curso de Jornalismo cantando à capela Mercedes Benz, da Janis Joplin. Enquanto cantava, hipnotizava a todos com sua interpretação marcante.
 
E lá fui eu saber mais sobre essa tal Janis Joplin, e também sobre Pink Floyd, The Clash, Ramones, The Doors, The Smiths, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gal Costa, Maria Bethânia e companhia. Não que na minha casa não se ouvisse MPB. Eu ouvia, mas as canções de Chico e Vinícius eram “as músicas dos meus pais”. Na UFG, como havia sempre alguém para me pedir para prestar atenção “nessa letra” ou “naquele arranjo”, aquelas músicas se tornaram minhas. 
 
Eu, que sempre tinha sido muito cheia de não-me-toques, na faculdade tive de adotar o padrão “frescura zero”. Se quisesse viajar para os congressos nacionais com a turma, tinha de ir para o sinaleiro pedir dinheiro nos pedágios. Também não podia fazer cara estranha para a comida do Restaurante Universitário, porque para muita gente ali aquele almoço era o que salvava o dia. 
 
A parte pedagógica foi um capítulo à parte. Os professores não entregavam apostilas de suas disciplinas. Passavam uma lista enorme de livros para você procurar na biblioteca e exploravam ao máximo sua capacidade de análise. Nada de decorebas ou fórmulas. Ou seu cérebro produzia muito fosfato e fazia milhares de conexões, ou você estava ferrado.
 
Os laboratórios eram muito precários, bem como a estrutura geral da faculdade. Era preciso aprender a partilhar os poucos aparelhos que funcionavam e ser ágil e responsável na hora de utilizá-los. Fora isso, as greves paralisavam as aulas por meses a fio. Mas se incomodavam, elas também nos obrigavam a saber por que professores e funcionários estavam protestando, se o salário deles era justo ou não. 
 
Além disso, conheci amigos maravilhosos. Na verdade, acho que temos um casamento, porque estamos presentes na vida uns dos outros na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na pobreza e na riqueza. E mesmo que alguns hoje morem em outros Estados ou países, quando é necessário, somos todos por um.
 
Olhando para trás, vejo que entrei menina na Faculdade e saí mulher. Nunca, num período tão curto de tempo, abri minha cabeça e meu coração para tantas coisas diferentes, nunca quebrei tantos paradigmas. E é nisso que penso quando o tédio começa a me atacar: se nos abrimos para as mudanças sem medo, se permitirmos que elas aconteçam, elas chegarão e nos transformarão. 
 
Em dezembro de 1996 saí da Facomb gente grande, não apenas por ter chegado aos 21 anos, mas também porque tinha uma maneira mais abrangente de ver o mundo e entender como ele funciona. Sem a faculdade, talvez eu ainda chorasse pelas bobagens de uma vida fútil e fosse Alice no País das Maravilhas. Obrigada, UFG. Graças a você, Alice acordou. 
 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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