Nas últimas
semanas duas histórias chamaram minha atenção. Uma conhecida disse que terminou
o namoro porque o rapaz era “bonzinho demais”. “Como assim?”, perguntei
curiosa. “Ah, daquele tipo que liga todo dia, não mente pra sair sozinho com os
amigos, não trai, faz as vontades da namorada, fala que está apaixonado…”
Um amigo
que também terminou o namoro deu desculpa parecida. “Ela era muito certinha.
Não tinha crises de ciúme, não estranhava minhas manias, nunca deu piti. Sabia
que podia confiar nela plenamente, que se eu virasse as costas ela não faria nada
que eu condenasse. Era previsível demais”.
Quando você
conversa com as pessoas sobre relacionamento, o que mais ouve é que o sonho de
consumo delas é ter alguém que não faça joguinhos, seja sincero e parceiro.
Dizem que estão cansadas de gente egoísta, intolerante e que arma pelas costas.
No entanto, quando essa pessoa aparece é dispensada por ser entediante.
O problema
não é achar quem é estável e joga limpo sem graça. O que não falta é gente masoquista por aí. A questão é que o
masoquista tem prazer em sofrer e, por isso, sai no lucro quando alguém pisa na
bola com ele. O duro são as pessoas que de masoquistas não têm nada, mas não
sabem mais conviver com quem é legal.
Parece que
a ausência de respeito e de parceria anda tão generalizada nos relacionamentos
que as pessoas acabam contaminadas pela descrença e falta de autoestima. Quando
aparece alguém que não as maltrate, não as torture e está ali para o que der e
vier, elas ficam sem saber o que fazer e acionam seus “anticorpos”.
A pessoa
leva tanto na cabeça, se decepciona de tal forma, que passa a acreditar que ninguém
presta. Quando surge alguém que vale a pena, aquilo lhe é tão estranho, tão irreal,
que desperta rejeição e medo. Medo de ser feliz? Pode apostar. Parece doentio e
esquisito, mas é isso mesmo.
Tem até
tese de psicanalista defendendo isso. Basta ler alguns artigos e livros do Flávio
Gikovate. Segundo ele, quando se deparam com a possibilidade real de serem muito
felizes, algumas pessoas têm tanto medo de se decepcionar e não merecer essa
felicidade que se sabotam e perdem o que traria alegria.
Você está
tão habituado a não ser valorizado, a ter seus sentimentos, crenças e necessidades
subestimados, que quando alguém faz o oposto você fica desconfiado e ri com ar
de deboche. Pensa que é piada de mau gosto, pegadinha do CQC. Uma peça que a
vida está pregando.
Como disse
Renato Russo em Teatro dos Vampiros: “Quando me vi tendo de viver comigo apenas
e com o mundo/ Você me veio como um sonho bom e eu me assustei…”. Triste
isso. Muito triste. A vida te entrega um presente maravilhoso, mas você devolve
dizendo: “Obrigado, é bom demais pra mim”.
A sensação
de excitação e desafio gerada por uma pessoa inacessível, que não manifesta
seus sentimentos, não se posiciona claramente no relacionamento nem faz questão
de apostar na vida a dois é tão efêmera quanto o tempo que você levará lendo
essa crônica. É tão ilusória quanto o Papai Noel e o Coelho da Páscoa.
Já o
estrago provocado pelo esnobismo, esse sim, demora a passar. Quando você resolve
aderir ao “padrão”, à resignação de que, em termos de relacionamento, o normal
é o ditado do “quanto pior, melhor”, sofre muito. E, a cada baque, a cicatriz provocada
pela queda anterior volta a ser aberta, doendo em dobro.
Ok, você
deseja uma pessoa legal, leal e sincera. Mas faço uma pergunta: você está preparado
para o seu desejo? Porque não basta querer, é preciso saber o que fazer com o
que se quer. E, mais importante de tudo: é preciso acreditar que se é digno das
oportunidades de felicidade que a vida coloca no caminho.
A pessoa
era legal demais e você não achou graça, deu aquela dispensada. Ela tocou a
vida e se arranjou. Está feliz com outro alguém e te ignora. Você liga e ela
não atende. Manda e-mails e ela não responde. Pergunta o que ela sente por você
e ela não diz nada. Infelizmente, agora ela ficou interessante.