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Que Brasil é esse?

15.05.2020 - 09:40:56
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Votei no Bolsonaro, no segundo turno das eleições de 2018. No primeiro sufraguei o nome de um candidato que julgava melhor, honesto e comprovada capacidade administrativa e política. A inconsistente massa ignara não o quis. Minha opção na segunda fase eleitoral não se baseou em critérios técnicos, mas por opção única de pisar na cabeça do monstro da corrupção chamado PT, que levou o país ao caos.
 
Votei nele não tanto pelo seu curriculum de velho deputado, com 28 anos de Congresso, onde jamais saíra do núcleo do baixo clero (deputados sem brilho). Sabia ser ele avesso ao trabalho, pois nunca apresentou um único Projeto de Lei. Destacava-se não pela inteligência, mas pelos arroubos de grosseria e macheza. Mesmo sem conhecer, como até hoje não conheço, qualquer meta ou projeto de governo, isso porque, entre os piores, escolhe-se o aparentemente menos ruim.
 
Votei nele, mas minha opção seria anular o voto ou em branco. Mas ao saber que o Sérgio Moro, na época tido como o grande herói contra a endêmica corrupção mandando todos os ladrões de plantão para a cadeira, dava maior segurança contra os malfeitos. De lá pra cá ninguém mais foi preso. Será por omissão ou porque acabaram-se os ladrões? Demitiu esse ministro por ele não permitir que se politizasse a Polícia Federal. Da noite para o dia esse herói contra a corrupção foi transformando em bandido, por meio de fake news expelidas pelo chamado ‘Gabinete do Ódio’, o demonizando como faz com todos que dele discordam.
 
Votei nele, mas está pisando fora do prumo. Meus amigos que o seguem cegamente, como aquela radical militância petista que defendia o Lula até nos roubos, têm uma só pergunta a qualquer discordância de seu “líder”: Você é contra o Brasil? Quem colocaria em seu lugar? Como se fosse ele o salvador da pátria.
 
Votei nele, mas sou contra esse Brasil que caminha célere para se tornar uma nova Venezuela. Aliás, pelas suas constantes ações e desastradas falas, já roubou do Maduro a primazia do patrocínio no noticiário negativo internacional.
 
Votei nele, mas me desencanta os resultados econômicos de 2019. O desempenho da economia brasileira encolheu mais que no Governo Dilma (cadê o gênio Paulo Guedes?). A peste ainda não havia aqui chegado. E olha que o Temer já havia tirado a economia do fundo do poço, para o qual está voltando. E agora, depois da pandemia, o que será de nós ante um debacle mundial?
 
Votei nele, mas me decepciona pela falta de firmeza ideológica, de falar uma coisa de manhã e ter que, pessoalmente ou pela assessoria, desmentir à noite o que dissera. Ofender aos berros jornalistas e profissionais da imprensa livre, e por fake news denegrir os presidentes das duas casas do Congresso Nacional e ministros do Supremo Tribunal Federal, assim como demonizando todos aqueles políticos que poderiam fazer sombra à sua candidatura a reeleição. Especialmente aqueles que o apoiaram, como João Doria e Witzel, eleitos como ele pelo voto popular, aos quais não pedira um só voto; ao contrário, eles é que lhe deram apoio no segundo turno, pois foram ambos eleitos na primeira fase eleitoral.
 
Votei nele, mas me assusta assistir tanta incongruência de ser o único presidente a perder o protagonismo no combate ao coronavírus, na contramão da posição de todos os demais presidentes do mundo, até seu ídolo Trump. Demonizou governadores e prefeitos que tiveram a ousadia constitucional de desobedecer a sua postura genocida contra o isolamento social, que evitou muito mais mortes. “E daí? Todos vamos morrer mesmo, até eu!” – disse aos jornalistas que ouvem seu monólogo no cercadinho do Palácio da Alvorada. Demitiu um eficiente ministro da Saúde só porque esse virou “estrela” por um trabalho eficiente. Nomeou um poste ao qual nem comunica ao tomar medidas, por decretos, na área da saúde, para suspender o isolamento social, que poderia acabar como ato genocida durante a epidemia que os sábios e responsáveis governadores e prefeitos não cumprem, por ferir decisão judicial.
 
Votei nele, mas me decepciona um presidente que esconde seus exames quanto à Covid 19, se recusa a mostrar os resultados laboratoriais sobre sua contaminação, como mais uma brincadeira, alegando privacidade. Privacidade é para o cidadão comum, as autoridades eleitas têm que ser transparentes para não ocorrer como o acontecido com Tancredo Neves. Mesmo com essa negativa sobre o teste viral, limpa o nariz durante as estapafúrdias concentrações antidemocrática e esfrega o catarro em velhinhos e nos aficionados que vão lhe cumprimentar.
 
Votei nele por acreditar nas suas bravatas de que iria combater a corrupção e a Velha Política do toma-lá-dá-cá. Hoje se alia à chamada “banda podre” do Congresso, cantada publicamente pelo general Heleno durante a campanha – “Se gritar pega ladrão, não fica um no Centrão”. Show esse publicado não só na demoníaca Globo, mas até nas santificadas Band, Record e SBT.
 
Votei nele, mas não concordo com a barganha com os milionários DNOCS e o setor das ferrovias, com orçamento de mais de R$ 25 bilhões, com esse afamado grupo parlamentar, na compra de apoio no Congresso. É o mesmo que dar à raposa a guarda do galinheiro. O poder muda as pessoas, tanto que gastou mais no cartão corporativo do Governo, em despesas pessoais, no primeiro semestre de 2020, que Dilma e Temer juntos.
 
Votei nele, mas sou um dos 50 milhões de votos arrependidos.
 
 
*José Osório Naves é jornalista e escritor, presidiu o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de Goiás em três mandatos consecutivos (1965-1974).
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por José Osório Naves

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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