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Quebrar com estilo

16.08.2013 - 10:56:18
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Goiânia – Desde os trailers de Pacific Rim ("Círculo de Fogo" aqui no Brasil), um amigo dizia que Guillermo del Toro poderia estar oferecendo uma espécie de resposta a Transformers, a coisa mais insuportável de todas as coisas insuportáveis já feitas por Michael Bay. A comparação, de fato, procede.
 
Lembro de quando vi Transformers 2 (2009). A trilogia é um amontoado de barulho e destruição aleatória, a parte 2 sendo o pior deles. Ao final da sessão, poucas poltronas à frente levantava um garoto muito empolgado, aplaudindo. Eu me sentia como se tivesse saído de uma coqueteleira, mas o menino parecia ter se divertido, talvez porque a lógica do quanto-mais-rápido-mais-veloz esteja cada vez mais presente e mais associada a uma ideia de diversão, a ponto de, hoje em dia, espectadores não conseguirem assistir a um filme no cinema sem parar para checar a telinha do smarphone vez ou outra. Se o blockbuster não tiver uma velocidade cretina, o sujeito vai dar uma checadinha no Facebook. Esta é a impressão que se tem durante um filme de Bay, que lhe enfia uma colher de grude antes que se possa ter qualquer noção de sabor da colherada anterior. É só ver a picotagem alucinada de suas montagens, que, sem demora, não se importam com qualquer concepção de sentido. É anestesiante.
 
No filme de del Toro, por sua vez, a Terra é invadida por monstros gigantescos de outra dimensão e precisa investir em robôs colossais para sobreviver aos ataques. Os clichês surgem quase como bolas cantadas num jogo de bingo, pois são evidentes e aparecem até completar uma cartela de obviedades que vão desde a superação de traumas do passado ao desfecho tipicamente feliz com o casal sobrevivente. Os personagens parecem se relacionar na dinâmica de uma produção highschool – há um maromba praticante de bullying, vejam só -, calculados na matemática mais básica. Até aí, pouco se diferencia de qualquer produção de Jerry Bruckheimer.
 
A sensação de resposta não só aos Transformers, mas de toda essa incansável quebradeira generalizada, em que a vontade de mostrar a capacidade de acabar com cidades inteiras parece ser o objetivo final dos atuais blockbusters hollywoodianos (GI JoeOs VingadoresO Homem de Aço…), vem, primeiramente, de planos mais longos que o costume para esse tipo de produção, evitando a mania da montagem esbaforida do corta-corta-corta antes que se passem dois ou três segundos de alguma imagem lembrável.
 
O que del Toro faz é filmar com algum encanto, um deslumbramento juvenil. O ângulo geralmente baixo tem algo do olhar de criança, um pouco como a mágica aparição do brontossauro em Jurassic Park (1993), de Steven Spielberg. Sua câmera é um tanto contemplativa, de alguma forma fascinada por esses mechas humanoides e criaturas oriundas de um universo que revela o eterno flerte entre o cineasta e a obra de Lovecraft.
 
Mesmo a ação em si, que presume uma destruição urbana colossal (são gigantes, afinal), parece ser mais focada. Parte dela ocorre em pleno mar, e, quando em meio a ruas, prédios e civilização, o movimento de "corpos" se impõe, às vezes sugerindo que Pacific Rim seria uma espécie de confronto entre gladiadores, até mais que aquele recente Gigantes de Aço (2011). A imagem de um robô arrastando um navio como se fosse um porrete é exemplo muito forte nesse sentido.
 
A cena da invasão de Sydney, na Austrália, é particularmente interessante. Num plano muito aberto, percebe-se que o monstro que a ataca é de alguma forma parecido com a Opera House, o grande centro de artes da cidade. Essas criaturas, assim como as máquinas robóticas, são elas próprias filmadas como construções arquitetônicas. O que temos aqui é uma aposta completa no apuro visual, sem receio, inclusive, de se prestar a coloridos fluorescentes.
 
Temos aqui, enfim, um brinquedão de tato e visão. Na sua raiz, está também uma cara homenagem ao (sub)gênero de monstros gigantes, ninho de Godzillas e Gargantuas, empenhadas tosquices dos anos 50 e 60. Não deixa de ser um blockbuster, e um desses sem muito fôlego industrial, aquém de suas expectativas de sucesso (custou 180 milhões de dólares, tem arrecadado, até então, mais ou menos o dobro, pouco para os padrões). O prazer está nos momentos em que del Toro acredita que até para fazer quebra-quebra é necessário um mínimo de embelezamento.
 
Achei um barato e não faço ideia de como aquele garoto da sessão de Transformers 2 reagiria ao filme.
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por Fabrício Cordeiro

*Crítico de cinema e curador da Goiânia Mostra Curtas 2013 - Mostra Municípios

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