Goiânia – “Não tem mais azar porra nenhuma”. Essa frase de Cuca foi a coisa mais bonita e sincera de toda justa comemoração da torcida, jogadores e comissão técnica do Atlético Mineiro. Após a novamente épica partida de ontem, o treinador do Galo desabafou de forma vulgar. Mas é só vulgarmente que conseguimos dizer de verdade aquilo que precisamos, extirpar de vez o que incomoda. No caso de Cuca, esse estigma de azarado o perseguia e naquele momento caiu por terra.
Não dá para dizer que a campanha do Galo foi marcada por azar. Na verdade, foi exatamente o contrário: a sorte de campeão marcou o time desde as oitavas de final. A expulsão de Lúcio, zagueiro do São Paulo, mudou o jogo em que a vaca começava a ir para o brejo e começou a apontar a um futuro vitorioso para o alvinegro da terra do pão de queijo. Nas quartas de final, o heróico pênalti defendido com os pés santos de Victor mostrou que a sorte não era passageira. Na semifinal, o gol salvador de Guilherme foi a certeza que o acaso favorecia o clube.
Quando parecia que a sorte havia abandonado a equipe, no momento do segundo gol do Olímpia já nos acréscimos da primeira partida, com direito a trapalhada de Alecsandro e do arqueiro Victor, os bons ares novamente sopraram na face aos atleticanos. Ou você tem outra explicação para aquela cabeçada sem força de Leonardo Silva, quase um recuo, morrer nas redes dos paraguaios?
Quem acompanha futebol sabe que a trajetória de Cuca é marcada por fatos curiosos: montou grandes equipes, fez campanhas reconhecidas pela torcida, mas não havia levantado canecos significativos. Isso até ontem. Libertadores da América não é para qualquer um. E Cuca definitivamente não é qualquer um.
Tenho simpatia por ele desde sua bem sucedida campanha no Goiás. Ele tirou meu Verdão da última colocação no final do primeiro turno do Brasileirão de 2003 e o colocou com vaga na Copa Sul-Americana. Rolou uma pequena mágoa quando ele saiu do meu time para o São Paulo, levando algumas peças importantes esmeraldinas para o tricolor paulista. Mas esse rancor passou, foi curto. A vida seguiu. Na equipe paulistana, Cuca chegou a uma semifinal de Libertadores, não conseguiu o título e deixou o comando do clube. Mas deixou a base do time que foi campeão do mundo no ano seguinte. Depois, marcou história em clubes como Botafogo, Cruzeiro, Fluminense… Só que nunca havia ganhado algo realmente imponente. Ontem foi seu dia. Entrou para a história do Atlético Mineiro. Marcou sua carreira como treinador para sempre.
Além de seu talento para montar equipes com vocação ofensiva, Cuca é uma figura. Supersticioso, reclamão, chiliquento. E com um coração gigante. Parece aquele tio cheio de manias que a família inteira adora. Por isso seu desabafo com direito a palavrão em cadeia nacional foi tão legal. Parabéns, Cuca! Você merece! E realmente agora não tem mais azar porra nenhuma!