Começou o falatório sem sentido. Bastou que a notícia da morte do baixista Champignon ganhasse o mundo para que os arautos da família, moral e bons costumes partissem para a ofensiva grotesca contra a memória do cara. Ouvi cada coisa que é de embrulhar o estômago… As redes sociais são o antro desse tipo de gente. “Um fraco que deixou a mulher grávida”. “Devia ser drogado”. “Não sabia lutar contra a pressão”. Na boa, de conceito senso comum, a humanidade não precisa mais. Pode guardar seus julgamentos para você mesmo.
Pesquisa feita com 15.629 casos de suicídio apontou que 90% das ocorrências estão ligadas a doenças mentais como depressão, ansiedade, alcoolismo, entre outras. Mas os donos da razão da internet não estão nem aí para isso. Só querem saber de julgar, julgar e julgar. Pulhas.
Qualquer um que decida pelo ato extremo contra si mesmo deve ser respeitado. Sem glorificação, sem condenação. Só respeito. Penso que cada um é dono de sua vida e tem o direito de colocar fim nisso, caso pense que não vale mais continuar por aqui. Não cabe julgamento moral. Não cabe penitência religiosa. Se seu Deus acha que ele sofrerá eternamente por conta dessa decisão, o problema é entre ele e seu Deus. Sua opinião é irrelevante.
Champignon era um baixista que tinha boa técnica. Dominava bem os slaps, técnica aprendida com horas e horas de audição das gravações de Flea. Companheiro musical de Chorão desde que era um molecote, era a segunda referência de carisma do Charlie Brown Jr. Uma espécie de braço direito do líder da banda, encontrado morto há pouco mais de seis meses.
No palco, era adepto da empolgação a qualquer custo. Não economizava energia em suas apresentações. Terminava os shows encharcado de suor. Os fãs o adoravam. Tanto que ele foi a escolha mais óbvia para assumir os vocais da banda composta pelos remanescentes do CBJ, chamada A Banca.
É impossível separar o legado artístico do baixista com tudo aquilo que já foi dito quando Chorão morreu: os dois cresceram juntos musicalmente, apareceram juntos e, independente do caminho profissional que escolhessem, dentro da música, sempre seriam comparados. Se um era a cara e voz do CBJ, o outro era o groove e fiel escudeiro. Que triste sina essa do Charlie Brown Jr., que agora caminha para o patamar de mito. Tragédias sempre colaboram para isso.
Que Champignon descanse em paz.