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Quem tem um sonho não dança

09.08.2011 - 19:25:14
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O único absorvente que Beth Fernandes ganhou foi direto para o lixo. A professora, que, literalmente, quis fazer uma graça, foi a autora da surpresinha. O apetrecho feminino foi dado para sacanear com ela por causa de uma brincadeira feita em sala de aula. Toda criança já respondeu ou o fará até o fim da infância à velha pergunta: "O que você vai ser quando crescer?". "Bombeiro", disse um. "Médico", respondeu outro. "Professora".

"Eu vou ser mulher quando crescer", falou Beth, aos sete anos, à sala, em resposta ao questionamento da docente. "Você nunca vai ser mulher", fazia questão de frisar, talvez por implicância, talvez por falta de formação para lidar com alunos de diferentes orientações. Este fato fez com que Beth mudasse de escola. Junto com a irmã, foi transferida pelos pais para uma instituição de ensino católica.

"Eu nunca tive professora que desenhasse estrelinha ou pintasse patinho no meu caderno, que me desse parabéns. Minhas professoras sempre foram muito secas comigo". Na nova escola, Beth teve de passar por uma cirurgia de miopia. Apesar de não enxergar nada de longe, as professoras jamais permitiram que ela se sentasse na primeira fileira. Contra a própria vontade, sempre lhe era determinado o famoso fundão, o qual detestava, já que não era de muitos amigos.

O recreio não era sinal de diversão tampouco de entrosamento com os coleguinhas. Do intervalo, Beth só guarda boas lembranças da merenda escolar. "Eu adorava o macarrão grosso, a sardinha, a farofinha, o feijão, a mandioca com mel…". Final da aula também não era momento para ficar de papo na porta da escola. Mal encerrava o expediente e ela já saía correndo de volta para casa.

Em certa ocasião, um colega de sala da mesma idade, ainda com menos de dez anos, tentou aproximar-se de Beth. Ele sempre levava cartões e calendários de mulheres peladas. "Todo machinho", adorava chamá-la para conversar. Não teve, no entanto, sucesso no intento. Beth, avessa às diversões do amigo de escola, não lhe dava muito crédito. Como ele percebeu que não conseguiria mesmo a amizade da colega, começou a implicá-la com xingamentos e outras provocações.

Nem as situações constrangedoras que as professoras tentavam lhe pregar nem o insucesso na amizade – que ela jamais fez questão de ter – deixavam Beth frustrada. "Não lembro de ter ficado aborrecida por causa destas coisas".

Em casa, a criança não tinha seu direito à livre escolha tolhido. Ela vestia-se de mulher e, sem nenhum constrangimento ou retaliação por parte da família, juntava-se às irmãs e brincava de casinha, penteava as bonecas e as tinha como filhas, simulava cozinhadinhas… Era a liberdade no quintal de Beth – cheio de árvores frutíferas, como mangueiras, pés de mexerica e abacateiros e gatos, cachorros e periquitos – que aumentavam a vontade imensa que a aula logo acabasse para poder voltar para casa e, lá sim, ser menina perante todos.

Após um dia cansativo no hospital, a mãe de Beth, técnica em enfermagem, depara-se com o guarda-roupa revirado, como se tivesse sido vasculhado por assaltantes à procura de dinheiro escondido. Aos berros, a filha é solicitada a ir ao quarto dos pais. Chegando lá, como já previa, a bronca. Sua mãe, como o restante da família, não se importava que ela se travestisse, o problema era a bagunça que sempre aprontava com as roupas. "Com as minhas peças tudo bem, mas mexer nas meias-calças de seda que eu vendo não pode".

O acontecido serviu de lição para Beth, que sempre teve o cabelo comprido. Foi aí, na infância, que os pais explicaram que nem tudo que sentimos ou somos os outros precisam saber. Por isto, só lhe eram permitidas as vestimentas femininas do portão para trás. O aprendizado familiar preservou-a de maiores constrangimentos na rua e até mesmo de atentados contra sua integridade física. "Isto você não fala para os outros. Isto você não faz para os outros", era o ensinamento do pai militar e da mãe enfermeira à filha.

Um dia, quando tinha dez anos, Beth começou a perceber a articulação de dois irmãos mais velhos. Ela logo saberia do que se tratava. Eles estavam tramando alguma, imaginava. E estavam mesmo. O alvo? A irmã. Eles planejavam amarrar pedaços de madeira nas pernas dela para que andasse mais firme, com "postura de homem". Beth rebolava muito e, para eles, não podia andar daquele jeito.

O projeto, que não foi executado, deixou marcas psicológicas. Ainda hoje acontece de Beth se pegar andando duro, como se estivesse com ripas fixadas às pernas. "Gente, não tem mais pau me segurando", relembra, pensando em dois sentidos, e logo recompõe a postura de mulher. A dupla passou um bom tempo arquitetando uma técnica de amarrar as tábuas para mudarem o jeito dela caminhar.

Beth, hoje psicóloga com mestrado em Saúde Mental, não nasceu com este nome. Tampouco com uma vagina, que é o que tem há quase dez anos no lugar do pênis, sempre denominado por ela de "aquilo", conseguido com uma cirurgia de transgenitalização, vulgarmente conhecida como operação de mudança de sexo. O nome de registro – "o de batismo?" – ela jura morrer sem contar. "Basta o gerente do meu banco, que faz questão de gritar meu nome na frente de todo mundo e dizer que eu tenho de procurar um advogado para mudá-lo".

João Camargo Neto é jornalista
@joaocamargoneto

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por João Camargo Neto

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