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Quem vai de taxi?

21.12.2012 - 20:11:09
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Veicula-se, desde que as festas de fim de ano se aproximam, uma propaganda do Detran que mexeu comigo. Algo como: fim de ano, amigo secreto, peru de Natal, troca de presentes e acidentes no trânsito. Surge então a cena de uma mulher com roupa de festa, morta no chão e alguém, provavelmente com algum parentesco, tentando se aproximar. O policial o afasta, quando ele cai em si que ela morreu por culpa dele e, então, chora muito. Essa propaganda mexeu comigo porque (como é a intenção de toda publicidade) conseguiu trazer a cena para minha realidade e me levar para aquela situação. Matando ou sendo morta.

Não há dúvidas de que vivemos um problema gravíssimo de mortes no trânsito, puxado principalmente por imprudências e mistura de álcool e direção. Há uma determinação da Organização das Nações Unidas (ONU) para que os países em desenvolvimento tomem providências para reduzir os acidentes de trânsito ou, do contrário, até 2015, eles serão a principal causa de mortes nesses países. No Brasil são 37 mil mortes por ano. Ou seja, o problema é grave e providências são necessárias. Mas, volto aqui, para o detalhe dessa determinação da ONU: “para países em desenvolvimento”.

Por que países em desenvolvimento têm mais problemas com mortes no trânsito? Porque somos mais ignorantes? Porque não temos leis rígidas? Porque há poucas multas? Porque dirigimos mal? Porque bebemos mais do que os cidadãos de países desenvolvidos? Para mim a questão é clara e óbvia: simplesmente porque não temos um sistema de mobilidade decente e utilizamos mais o carro em nosso dia-a-dia do que outro cidadão de país desenvolvido, que tem a sua disposição transporte público de qualidade.

Já ouviram falar em um ditadozinho usado por aquele vizinho quando você bate o carro? “Só bate quem dirige!”. Simples assim, quanto mais temos contato com carro, mais chances de acidentes. E, simplesmente, é a nossa alternativa quando temos um sistema de transporte público precário que não encoraja ninguém a deixar o carro em casa e inspira sonho em cada trabalhador de financiar o seu.

Quando comprei meu primeiro carro não tive a felicidade que todo mundo achava que teria. Minha satisfação se limitava em independer dos ônibus caóticos de Goiânia, onde me sentia um boi dentro de um caminhão e poder sair, por exemplo, do meu trabalho que fica para lá do Parque das Laranjeiras e conseguir chegar em tempo de assistir a uma aula no Campus da UFG, no Itatiaia.

Quando penso no preço que pago por esse carro, no seguro, no combustível, no óleo, na revisão, só consigo pensar nos jovens alemães da minha idade que conheci em Berlim e em Colônia que estão longe de pensar em comprar um carro. Felizes, vivem pegando metrô de lá para cá. Usando seu dinheiro para viajar, por exemplo.

Por isso que recebi com indignação a notícia de que a Lei seca, a partir desta sexta-feira (21/12), será mais rígida. Qualquer foto ou vídeo pode comprovar se o motorista está dirigindo bêbado e, ainda, a multa passa de R$957 para R$1.915. Só consigo pensar que é muita malandragem ou hipocrisia acreditar que são com essas medidas isoladas que vamos conseguir fazer um trânsito mais humano e atingir as metas impostas pela ONU. Acelerando a máquina de fazer dinheiro que são as multas nesse país.

Você acha que falta radar nessa cidade? Que faltam blitz? Que faltam pardais ou lombadas? Eu acho mesmo que faltam bicicletários e ciclovias. Que faltam, pelo menos, seis linhas de metrô. Faltam táxis a preços acessíveis. Faltam linhas de ônibus que garantam que eu chegue em tempo em uma aula depois do meu horário de trabalho. Falta ar, espaço, dignidade dentro dos ônibus. Quem já entrou em uma linha 020 às 18 horas sabe do que estou falando. É de se sentir desumano.

A rigidez das leis e das multas cresce num ritmo absolutamente acelerado e desproporcional ao desenvolvimento de alternativas públicas, ou pelo menos, acessíveis, para aqueles que querem sair e beber. Só me resta crer que não há uma preocupação, de fato, com as vidas que findam no asfalto. Se a tivesse, haveria um mínimo esforço pela mudança no sistema de mobilidade das cidades que é onde, de fato, reside todo o problema das mortes no trânsito.

Nos países desenvolvidos há rigidez da Lei seca. Bem como há alternativas públicas para quem quer beber e sair. Uma das maiores sensações de liberdade que já senti foi em Berlim e Colônia, quando saí à noite, bebi e voltei para casa à hora que eu quis na madrugada, sem esperar mais de dez minutos pelo transporte e sem temer ser assaltada ou estuprada.

Minha preocupação, portanto, é absolutamente convergente com a da ONU: que em oito anos, acidentes de trânsito sejam a maior causa de morte no Brasil. Mas, diferentemente das propostas de nossos gestores e legisladores, não penso que multas, isoladamente, vão resolver os problemas das mortes no trânsito desse país. Elas servem a alguém com produção de tantas cifras, que não somos nós. Rifam direitos, sem garantir outros. Essa lei só faz sentido quando se pensa na mobilidade como um todo. Falta uma proposta pública que possibilite ao cidadão ter o direito de beber e de sair, sem que tenha que dirigir. Uma proposta que, dessa forma, preservasse a vida e o direito de viver. 
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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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