Tem um site chinês que virou febre com a mulherada do meu trabalho. Elas compram um monte de roupas e badulaques mil, passam poucos dólares no cartão de crédito internacional e recebem no conforto do lar a mercadoria. Até agora, nenhuma tomou calote. O frisson é geral. Só tem um probleminha: para vender com valor tão atrativo, é elementar que mão de obra praticamente escrava está na jogada.
Todas que estão empolgadas com as compras do outro lado do mundo são muito inteligentes, humanistas e que se preocupam com questões que considero pertinentes. Uma é vegetariana por não compactuar com o sacrifício de animais para alimentação humana. Outra é entusiasta da causa de animais domésticos e se mobiliza direto para conseguir adoção para os bichinhos. Uma terceira já é revoltadíssima com os usos nada republicanos do dinheiro público em nosso País e sempre está em manifestações. Só que o processo industrial desumano sabe-se lá onde não tirou a empolgação pelos vestidos a preços sedutores.
A real é que nossa hipocrisia é de cair o queixo. Amamos o churrasco mas não queremos ver o abate dos animais, vide a polêmica boba envolvendo o chef Alex Atala. Queremos altíssima tecnologia com valores acessíveis e não estamos nem aí para a forma como tais equipamentos foram montados. Se a roupa é barata, ninguém se importa para direitos trabalhistas.
Esse site só escancara algo que sabemos que acontece há séculos, mas simplesmente fechamos os olhos para isso. Por exemplo, provavelmente esse computador, tablet ou smartphone que você usa agora para acessar A Redação foi fabricado em um país no qual CLT é sonho tão distante quanto a Mega-Sena para o brasileiro. E isso não nos causa um grande dilema moral.
Se nós fôssemos usar, digamos, um aparelho celular todo fabricado sob regras trabalhistas que consideramos decentes , nada muito ousado, só carga horária digna, remuneração compatível com a função exercida, férias, salário extra ao final do ano e licenças médicas remuneradas, o valor cobrado pelo telefone seria inviável para grande parte de nós. Por isso, não pensamos muito no assunto. Apenamos curtimos o próximo post engraçadinho nas redes sociais e tocamos o barco adiante.
Se a sujeira e a escravidão estão longe de nós, a impressão é que não existem. A velha tática de empurrar o que não presta para debaixo do tapete. Ou para o outro lado do mundo. O que os olhos não veem, o coração não sente. E se o bolso ainda aprova, aí é que fica melhor ainda.
Enquanto isso, outra criança asiática começa sua rotina de trabalho de 20 horas por dia em um galpão fechado. Tudo para seu conforto.