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Raptem as camaleoas

04.06.2012 - 11:11:23
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Ao observar certas situações, preciso rir para não chorar. Foi o que aconteceu na semana passada, num restaurante japonês. Como a casa estava lotada, os clientes se espremiam e acabavam se sentando bem próximos uns dos outros. Diante disso, acabei ouvindo, involuntariamente, a conversa de duas mulheres da mesa ao lado. 
 
Enquanto uma delas fazia cara de ânsia de vômito a cada vez que colocava um pedaço de salmão cru na boca, a outra tentava estimular dizendo: “Vamos lá, você consegue!”. Fiquei imaginando o que leva uma pessoa a ir para um restaurante e pagar por um prato que odeia. Logo descobri a razão.
 
“Você precisa mostrar a ele que é uma mulher moderna e descolada. Ele é fino, viajado, vai te achar uma caipira se souber que odeia comida japonesa. Engole de uma vez!”, ordenava a amiga. E lá ia a outra, com asco total, aprendendo a fingir que adorava comida japonesa desde criancinha para impressionar o pretendente.
 
É incrível como as mulheres são capazes de abrir mão da própria personalidade sem pensar duas vezes, somente para ter um homem do lado. É claro que do lado masculino também há quem se anule para agradar a parceira. Mas entre o público feminino a coisa é muito, mas muito pior. Chega a ser constrangedora. 
 
E não pense que digo isso para dar lição de moral. Falo com absoluto conhecimento de causa. Já fui camaleoa várias vezes na vida, assumindo a “cor” que meus namorados queriam, para mostrar a eles o quanto eu era perfeita e o quanto tínhamos afinidade, para que percebessem como eu era a “metade da laranja” deles.
 
Uma vez resolvi que seria a melhor confeiteira de Goiânia. O namorado da época amava bolo e lá fui eu, atrás de dezenas de receitas, só para impressioná-lo. Um dia eu fazia bolo de banana, no outro de maçã com nozes, e por aí vai. Até que meu ascendente e lua em Sagitário se rebelaram e me mostraram que posso até ir para a cozinha feliz, desde que seja por vontade própria, nunca por obrigação.
 
Também já tentei amar Victor & Leo, Paula Fernandes e Gusttavo Lima sobre todas as coisas, mas não adiantou. A cada vez que ouvia o “tchê tcherere tchê tchê”, mais tinha certeza que o que é de Tom, Vinícius, Caetano e Chico, o sertanejo não come. Também tentei ler as obras mais importantes de uma filósofa para mostrar a um namorado o quanto era culta. A ideia só me rendeu uma enxaqueca do cão.  
 
Lembro de uma amiga que detestava futebol mas, ao começar a namorar um cara que era fanático por um determinado time, comprou diversos livros de esporte, buscou tudo sobre a história do tal time e hoje parece que é torcedora desde o útero da mãe. Comprou camiseta oficial e sabe de cor o nome e a posição de todos os jogadores.
 
Há também aquelas que, ao começarem seus relacionamentos, se esquecem completamente dos amigos e da família. A turma do namorado passa a ser a sua, os parentes do namorado passam a ser os seus. Os programas que gostavam de fazer antes são todos substituídos por aqueles do parceiro, num toque de mágica.
 
Não há mal algum em fazer concessões num relacionamento. Aliás, sem elas não existe relacionamento que sobreviva. Aprender com o outro, permitir-se experimentar o mundo e as preferências do outro pode ser muito legal. O problema é quando a pessoa abre mão completamente dos próprios gostos e objetivos para se tornar o que ela acha que o parceiro gostaria que ela fosse.  
 
Não acredito que os opostos se atraem. Penso que ter afinidade de caráter e de objetivos de vida é fundamental para um casal. No entanto, acho que as pequenas diferenças de gosto e temperamento, as peculiaridades que cada um tem, são justamente o que torna a relação mais rica e interessante.
 
Juro por Deus que, se eu tivesse que conviver 24 horas por dia com um clone meu, eu surtava. Quando alguém me mostra sua real personalidade, quando me apresenta o que gosta e o que lhe motiva, acaba me instigando a ver o mundo de uma forma diferente, a crescer, e isso fortalece e alegra o relacionamento. 
 
Hoje não gosto dessa história de ser a metade da laranja de alguém. Primeiro porque sou uma fruta inteira, não uma metade. Segundo porque acho suco de laranja puro muito sem graça. Prefiro abacaxi com hortelã, morango com acerola ou uva com água de coco. Esse toque de diferença deixa tudo mais gostoso.
 
Raptem as camaleoas. Tranquem-nas numa sala de meditação enorme e as obriguem a repetir 108 vezes o mantra: “Ter personalidade é tudo de bom/ Ter personalidade própria é tudo de bom”. Quem sabe assim elas percebam o quanto são incríveis e descubram que o melhor jeito de surpreender o outro é ousar ser elas mesmas.
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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