Desde minha tenra infância, ouço falar na transferência
do Parque de Exposições Agropecuária do coração da Nova Vila. Tenho certeza que
vou morrer com mais de 100 anos, se os maus hábitos permitirem, e aquele
quarteirão da discórdia do mês de maio vai continuar ali. Atormentando toda
cidade. Travando o trânsito da Praça Cívica ao trevo do Jardim Pompeia. É
vergonhoso.
Sei que o agronegócio puxa o Produto Interno Bruto de Goiás
para acima da média nacional. Sei que os shows que considero horrendos
arrebatam multidões em minha querida cidade. Sei que os caras financiam
campanhas políticas bem-sucedidas em todas searas possíveis. Mas será que nunca
teremos um governante com a moral de chegar e dizer na alta: “SGPA, na boa, sei
que vocês são relevantes, mas o bem-estar de toda capital é mais importante que
a festa anual de vocês. Vamos arranjar outro lugar para o oba-oba de maio?”.
Não dá mais para convivermos com o trânsito infernal na
esquina da Independência com a Quinta Avenida reverberando para meia cidade.
Não dá mais para ouvirmos shows durante 14 dias ininterruptos ao longo de meia
cidade. Não dá mais para sentir a fedentina de não sei quantos animais
contaminando o ar de meia cidade. Não dá mais para os caras acabarem com a
qualidade de vida de meia cidade e somente aguardamos o transtorno no ano
seguinte. Passam governos, passam partidos, passam discursos e a Pecuária continua
lá. Fétida e feliz, matando a qualidade de vida de nossa cidade.
É inaceitável que as coisas continuem como estão. Quantos
TACs foram assinados? Quantos sonos foram impedidos? Quantas horas gastas em
congestionamentos monstruosos? Tudo pela falta de peito de encarar uma
discussão franca com os reis da arrecadação de Goiás. Vaca vale mais que gente?
Acredito que não. Mas que dono de vaca vale muito mais do que o cidadão comum
que bate o ponto diariamente, não tenho a menor dúvida.
Enquanto a Pecuária continuar encravada em região nobre da
cidade, devemos nos contentar com nosso velho estigma de roça asfaltada. É o que
somos. A vida é dura e nosso carma é a mentalidade arcaica do século XVIII com
o fim do ciclo da mineração. Sobraram os boiadeiros. E eles dão as cartas até hoje.
E não há Paul McCartney, nuvem de louva-a-deus e coros emocionantes de na-na-na
para mostrar o contrário.
Axl Rose gritava raivoso sobre a Los Angeles oitentista “welcome to the jungle”. Eu falo,
constrangido e disfarçando, para você: “welcome
to the farm”. E que um meteoro de bom senso possa enfim cair na razão de
nossos governantes.