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Recife: um carnaval menos popular?

05.02.2013 - 10:20:57
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Recife – A sensação que tive ao ver a grade da programação do carnaval de Recife na última semana foi o avesso à de 2009, quando vi pela primeira vez esse carnaval de perto. Lembro-me como se fosse ontem. Juntei os trocados e fiz minha viagem de fim de ano para Itacaré, no Reveillon de 2009. Quando voltei, sem um puto e apenas com data marcada para começar um estágio e sair da pindaíba, minha irmã mostrava as infinitas páginas com a programação do carnaval de Recife e Olinda. Admiti que ela tinha sido mais esperta do que eu. Guardou seus trocados e folgas para o carnaval e então me matava de inveja (era esse o sentimento mesmo) exibindo todos os shows a que assistiria. Mas toda essa empolgação, de 2009, se transformou em espécie de decepção, agora em 2013. 
 
Para além dos clássicos Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Lenine, Elba Ramalho, Nação Zumbi e toda esse trupe que a gente espera ver mesmo num carnaval pernambucano, somava-se a turma nova local na programação de 2009. Muito Eddie, Otto, Mundo Livre e Karina Buhr, por exemplo. Eles por si seriam a razão da minha empolgação, mas não foram. Nos palcos e nas ruas, a razão do melhor carnaval de minha vida foram os grupos de cultura popular que sempre me inspiraram (a mim e a meu grupo, Passarinhos do Cerrado) e que teríamos chance quase única de assistir ali.
 
Somente ali porque grupos de cultura popular não são ouvidos com facilidade nas rádios. Nem vistos na Multishow ou MTV. Não estão em todos os festivais de música e não chegam aos famosos palcos com facilidade. Constituem a chamada rota alternativa que a gente consegue ver, ouvir e assistir com certo esforço e procura.
 
Nomes como Lia de Itamaracá, Coco do Amaro Branco, Maciel Salú, Quarteto Olinda, Coco Raízes de Arcoverde, Pandeiro do Mestre, Siba e a Fuloresta do Samba, Mestre Ferrugem e Renata Rosa constavam na programação dos palcos do carnaval de Recife e Olinda. Minha felicidade ao ver aquilo e desespero por não ter dinheiro para viajar acabaram convencendo meu pai em me dar a passagem e com o resto me virei. 
 
Como imaginei, shows de Alceu, Lenine, Nação e todos mais não me decepcionaram. Assim como de Mundo Livre, Eddie e a turma nova. Mas a cara do carnaval mesmo estava estampada naquilo que não estava nos grandes palcos. Nos grupos de Caboclinho, Maracatu Rural, Afoxé, Frevo e todos mais que disputavam as ruas de Olinda em poucos dias de carnaval. Nos grupos de cultura popular nos palcos menores que mostravam porque esse carnaval é famoso e tradicional. 
 
A sensação era de que o carnaval era, de fato, uma festa popular, tradicional e deles, pernambucanos. Nós, turistas, pouco fazíamos falta por ali. Era como se nossa presença fosse praticamente indiferente para aquilo tudo acontecer. Os pernambucanos esperam por essa festa, ensaiam, passam de pai para filho e tudo continua. Por eles, pela história, pela cultura. Muito menos pelo turismo. 
 
Dessa vez, encontrei nem mesmo 25% dos nomes das figuras de cultura popular na programação dos palcos de 2009. A sensação foi de estar de frente para uma programação mainstream. Ao me deparar com aquilo, pensei que talvez estivesse um pouco desligada e encontraria com eles em outros palcos. Para minha não-surpresa, deixei recado para uma das artistas perguntando onde encontraria show dela no carnaval, quando me respondeu que nem a prefeitura do Recife nem a Fundarpe aceitaram seu show e que, para vê-la, deveria procurar pelo seu show por outros palcos afora. 
 
A minha maior tristeza não é risco de não assistir a esses shows nesse ano. Mesmo porque, confio na pernambucanidade e no amor pelo carnaval desse povo, e sei que vou encontrar uma roda de coco ou ciranda ali ou acolá. Sei que as ruas de Olinda ainda estarão tomadas pelos papangus, maracatus, caboclinhos e frevos. A minha decepção é em saber que o reconhecimento pela cultura popular parece ter se perdido nessa programação. Reconhecimento esse fundamental para preservação da cultura popular.
 
Ninguém espera assistir a um mestre de coco na MTV. Ninguém espera que esses grupos sejam convidados para gravar pela Warner. Ninguém pede para que estejam no top número um das rádios. Mas no carnaval de seu estado, sim, todos esperam pelo show. Nenhum grupo espera sobreviver pelo caminho da indústria cultural, mas conta com o apoio e financiamento do Estado, que, supomos, faz o devido reconhecimento do valor da cultura tradicional e local.
 
O Carnaval de Pernambuco sempre pareceu ir na contra mão dos outros carnavais do país. Como em Salvador, onde as ruas, públicas, tornam-se espaços privados, sectários e caríssimos. Onde quem pode, passa para o lado de dentro da corda para acompanhar o trio. Quem não pode, fica de fora vendendo cerveja. Onde os reis e rainhas do axé que fazem seus milhões carnavais fora de época Brasil afora sobem nos trios pela mão do Estado enquanto os grupos de afoxé tradicionais procuram um espaço para mostrar seu trabalho durante o carnaval.
 
Aqui, nem querendo, você paga para estar num espaço mais privilegiado que o outro. A rua é de todo mundo e o carnaval também. Dançam o frevo e acompanham os blocos os turistas gringos endinheirados e os ambulantes locais. Até então, tinham seu espaço nos palcos a cara famosa de Pernambuco e aquela que se descobre pesquisando. A sensação, portanto, ao ver a programação é de houve uma regressão. De que Recife parece entrar na onda de outros carnavais. 
 
Quem sai perdendo é o turista, ao estar privado de assistir o Pernambuco que a indústria cultural não leva para fora. Perde ao não participar do melhor caráter do carnaval – compartilhar a popularidade e a tradição cultural junto aos pernambucanos. 
 
Perdem os artistas e os grupos de cultura popular. Que entregam a vida à criação e produção de uma arte que garante a preservação da cultura e história de seu estado; seu país. Perdem por não mostrar seu trabalho para milhares de brasileiros e estrangeiros. Perdem por não compartilharem oficialmente da festa de seu estado. Perdem por não ter a oportunidade de trabalhar e ter a remuneração devida que os incentive a nunca parar.
 
Perde mais ainda o estado por deixar de investir naquilo que é sua identidade, sua base, sua essência. Perde por não reconhecer aquilo que sustenta a cultura do estado; que inspira novos artistas, assim como inspirou os grandes que levaram o nome de Pernambuco para fora. Perde por deixar de mostrar parte do que isso tem de melhor: o amor e valor pela cultura popular.  
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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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