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Redes sociais e o jornalismo de joelhos

17.06.2016 - 17:08:48
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Em 30 de outubro de 1.938, Orson Welles faria aquela que talvez seja a mais famosa transmissão de rádio de todos os tempos. Ao narrar uma invasão marciana baseada no livro A Invasão do Mundo (Herbert George Wells), como se fosse uma notícia real, a transmissão não só revelou o talento de um então pouco conhecido Welles como reafirmou a força da comunicação de massa. Acompanhada por 6 milhões de ouvintes, segundo a CBS, a dramatização causou pânico entre os norte-americanos, que creram na veracidade de tal invasão.
 
A penetração, a influência e a rapidez da propagação de fatos (verídicos ou não) pelo rádio, na época, eram, proporcionalmente, similares às das redes sociais no presente. Com uma diferença fundamental: a produção da informação saiu do monopólio dos profissionais e das amarras das dispendiosas tecnologias dos meios tradicionais para estar disponível a qualquer pessoa a um custo muito mais acessível.
 
Há algumas semanas, nesse mesmo espaço, comentei sobre como esse caldo proporciona um ambiente favorável à proliferação de hoax (as mentiras da internet). Mas há um outro tipo de ficção deliberada que também se beneficia da cultura da hiperconectividade: a fanfic.
 
Ao contrário do boato, muito usado, por exemplo, na política para desconstruir a imagem de adversários, a fanfic trabalha com mais sutileza. Com objetivo de disseminar uma visão de mundo, ela utiliza narrativas que, mesmo carecendo de verossimilhança, atingem a subjetividade do receptor.
 
É preciso aguardar o final das investigações para ter certeza, mas o suposto estupro ocorrido nas dependências da Universidade Federal de Goiás (UFG) pode ter sido uma fanfic. Primeiro, um estudante utilizou o Twitter para narrar ter presenciado o desfecho de um caso de violência sexual na universidade. Logo, o assunto tomou conta das redes e, como não poderia deixar de ser, teve ampla repercussão nos veículos de comunicação. Por fim, a delegada que cuida do caso concluiu que não houve estupro algum. O que era um suposto estupro se transformou em suposta comunicação falsa de crime.
 
Tal fato ganharia repercussão em qualquer contexto, mas, turbinado pelas discussões sobre cultura de estupro (que ganharam força após uma adolescente ter sido vítima de estupro coletivo no Rio de Janeiro), alcançou uma amplitude ainda maior. É assim que a fanfic prospera: a comoção social é o oxigênio que ela precisa para sobreviver.
 
As fanfics têm uma estrutura mais ou menos similar. Parte de um fato repugnante (demonstrações de preconceito, violência ou intolerância) e termina com uma lição de dignidade (normalmente vinda de alguém inesperado). Os protagonistas podem ser criancinhas politicamente precoces, senhorinhas que enquadram jovens de classe média, anônimos aplaudidos em público ao repreender um homofóbico, vegetarianos que choram em frente a um filé e acabam convertendo o açougueiro à causa.
 
Há várias coletâneas de fanfics pela web e objetivo aqui não é fazer juízo de valor sobre delas, mas observar como o jornalismo as tem reproduzido sem qualquer criticidade (assim como ocorre com os hoax).
 
No livro “A conversação em rede”, Raquel Recuero, pesquisadora da comunicação mediada pelo computador e redes sociais, cita o papel diferenciado dos veículos de comunicação tradicionais nessa conversação, tanto pela visibilidade que possuem quanto pela legitimação que dão aos fatos propagados pelas redes sociais.
 
Dessa forma (aí a conclusão é minha), a imprensa, que perdeu parte do privilégio de ser fonte original, tem a responsabilidade de atuar como filtro, como moderadora entre o que é fato e o que é ficção. Infelizmente, o jornalismo tem abdicado desse papel e se limitado a reverberar as redes sociais, como um condenado ajoelhado inerte diante do carrasco. 
 
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por Rodrigo Hirose

*Jornalista com especialização em Comunicação e Multimídia

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