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Redução da polifarmácia em Idosos

31.08.2018 - 19:30:19
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Goiânia – A polifarmácia inadequada, especialmente em pessoas idosas, impõe uma carga substancial de eventos adversos de drogas podendo levar a hospitalização e, até mesmo a morte. O mais simples e importante preditor de prescrição inapropriada e risco de eventos adversos de drogas em idosos é o número de medicamentos prescritos.
 
A desprescrição é o processo de diminuição ou interrupção de drogas, com o objetivo de minimizar a polifarmácia e melhorar os resultados do paciente. A evidência de eficácia para desprescrição é proveniente de ensaios randomizados e estudos observacionais.
 
O JAMA (Journal of the American Medical Association) publicou um artigo em que propôs um protocolo de desprescrição que compreende cinco etapas:
 
1-Verificar todas as drogas que o paciente está atualmente ingerindo e os motivos para cada uma: 
Peça aos pacientes que levem todos os medicamentos para consulta.
 
Peça que informem quaisquer medicamentos regularmente prescritos que não estão sendo tomados e, em caso afirmativo, o motivo (por exemplo, preço, efeitos adversos).
 
2-Considerar o risco geral de dano induzido por drogas nos indivíduos:
Determinar e avaliar o risco de acordo com:
Fatores das drogas: número de medicamentos (preditor mais importante), uso de drogas de “alto risco”, toxicidade atual ou passada.
 
Fatores do paciente: idade acima de 80 anos, comprometimento cognitivo, comorbidades múltiplas, abuso de substâncias, prescritores múltiplos, a não-adesão passada ou atual.
 
 3-Avalie cada medicamento por sua elegibilidade para ser descontinuado:
A- Dano real ou potencial de um medicamento supera claramente qualquer benefício potencial
B- Medicamento de controle de doenças e / ou sintomas é ineficaz ou os sintomas estão completamente resolvidos
C- É improvável que a droga preventiva confira qualquer benefício importante para o paciente sobre a vida útil restante do paciente
Identificar medicamentos prescritos para um diagnóstico não confirmados; Identificar medicamentos prescritos para contrariar os efeitos adversos de outras drogas.
 
Identificar “fármacos para evitar” em pacientes mais idosos (tratamento agressivo de HAS e DM).
 
Identificar medicamentos contraindicados em pacientes específicos (por exemplo, bloqueadores de β em um paciente asmático).
 
Identificar medicamentos que causam efeitos adversos bem conhecidos. 
 
Pergunte ao paciente: Desde que você começou a usar este medicamento, houve uma grande diferença que em você preferiria continuar? E considera interromper o uso da droga se a resposta for não. 
 
Pergunte: Você ainda está com sintomas? (tosse, dor de cabeça, dispepsia, etc.) Você sente que ainda é necessário um medicamento? Considere suspender o uso do medicamento se a condição alvo for autolimitada, leve, intermitente ou passível de intervenções não invasivas (por exemplo, mudança na dieta, uso de álcool).
 
Determine as expectativas e preferências do paciente –  a qualidade de vida atual é mais importante do que o prolongamento da vida ou prevenção de futuros eventos mórbidos? Identificar medicamentos improváveis de conferir benefício durante a vida útil restante do paciente.
 
Pergunte ao paciente: Além dos efeitos colaterais, existem outras preocupações que você tem com seus medicamentos? Identificar medicamentos particularmente difíceis (por exemplo, dificuldade em deglutição de comprimidos grandes, alto custo, requisitos de monitoramento)
 
4- Priorizar drogas para descontinuação: 
Decidir a ordem de descontinuação de drogas pode depender da integração de 3 critérios pragmáticos: 
Drogas com maior prejuízo e menor benefício;
Drogas mais fáceis de descontinuar, ou seja, a menor probabilidade de reações de abstinência ou recuperação da doença;
Drogas que o paciente está mais disposto a descontinuar primeiro.
 
5- Monitorar drogas e regime de descontinuação: 
Cessar 1 droga por vez, de modo que os danos e benefícios possam ser atribuídos a medicamentos específicos e corrigidos (se necessário).
 
Comunicar planos e contingências a todos os profissionais de saúde e outras partes relevantes (cuidadores, familiares) envolvidos em cuidado do paciente.
 
Documentar completamente os motivos e os resultados de desprescrever.
 
Este protocolo de desprescrição é extremamente importante e, apresenta como essência, ouvir o paciente falar sobre sua experiência diária com as medicações. A escuta atenta, certamente, é a principal arma para uma desprescrição eficaz e segura.
 
*Dra. Eliza de Oliveira Borges é geriatra e fundadora do Projeto Cuidar – Geriatria Goiânia (https://geriatriagoiania.com.br).
 
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por Eliza De Oliveira Borges

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