Cena mais que comum nos dias de hoje: no exato momento daquela explosão de alegria que pode ser em um show quando o artista toca seu principal hit, no estádio na comemoração de um gol, ou no encerramento das Olimpíadas. Um momento único na vida de qualquer um. Olhamos para os lados para sentir a energia do público e só vemos celulares filmando/fotografando tudo. Ao invés de viver aquele acontecimento, as pessoas estão registrando.
É loucura demais para minha cabeça tentar compreender o que motiva as pessoas a registrar tudo. Tudo bem que sou meio ermitão. Não gosto de fotografias. Nunca gostei. Tenho poucos registros de imagem das coisas que fiz. Viajei algumas vezes pelo Brasil sozinho. Na época das passagens aéreas de preços proibitivos, pegava minha mochila, ia para a rodoviária e partia para a exploração desse Brasilzão de meu Deus. De várias dessas viagens, não tenho sequer uma fotografia. O que foi digno de lembrança, ficou na cabeça. Só precisamos lembrar daquilo que foi memorável. O restante, na boa, não importa. Uma vez, quando fui para Florianópolis, minha avó colocou em minha mochila uma máquina com um filme de 36 fotos intacto. Do jeito que foi, voltou. Intacto. Dessa viagem ainda tenho umas quatro fotos, pois uns argentinos que fiz amizade no albergue me mandaram. Se não fosse isso…
Com a facilidade do acesso nos dias atuais, quando cada celular é uma máquina fotográfica e filmadora, isso virou uma loucura. O cara faz foto e vídeo de tudo enquanto a vida vai passando, passando, passando… Recentemente, Roger Water, ex-baixista do Pink Floyd, reclamou disso. Ele está circulando o mundo com um dos maiores espetáculos que esse planeta já viu, o show The Wall. Em entrevista, o cara falou de seu desespero em estar oferecendo um momento para lá de singular na vida de qualquer ser humano, mas as pessoas ao invés de se deleitar com o show preferem assistir o registro. Depois, compartilharão nas redes sociais, ganharão algumas curtidas e nunca mais terão chance de viver aquilo de novo. As prioridades andam muito loucas.
A sanha de fazer foto e filmar é sedutora, confesso. Mesmo eu que não gosto muito dos registros sou várias vezes tentado a tirar minhas fotinhas. “Pô, isso é tão lindo e a máquina está aqui no meu bolso…”. Mas é preciso controle para não sair da linha e perder chances. A vida não perdoa e passa enquanto você está procurando o melhor ângulo para sua foto. Algumas tribos indígenas acreditavam que a fotografia roubava a alma de quem era registrado. Nunca achei um absurdo tal hipótese. Afinal, aquela foto eternizará sua alma naquele momento. Se você tiver triste, alegre, feio, bonito, gordo, magro, com cabelo bagunçado, beijando uma mulher feia… Aquilo estará na foto. Sua alma ali foi roubada. Hoje, além da alma, as máquinas tiram também o viver das pessoas. A vida passando e todos fotografando.