Marina Morena
Fotos: Adriano Carvalho
Considerada um museu a céu aberto, a pequena cidade histórica de São Luís do Paraitinga, no interior de São Paulo, mudou o curso da própria história depois de uma trágica enchente, em janeiro de 2010. Casarões, praça e igrejas datadas do século 19 ficaram debaixo das águas do rio Paraitinga. Foi preciso uma força-tarefa dos moradores e de organizações não-governamentais para reestruturar o patrimônio histórico do local, que não foi totalmente recuperado até os dias de hoje.
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Convidada a fazer uma análise para o salvamento emergencial do patrimônio, anteriormente tombado pelo governo do Estado de São Paulo, a Construtora Biapó se deslocou com técnicos e especialistas em restauração para tentar entender o tamanho da desordem. Com orçamento aprovado para salvar as igrejas de Nossa Senhora das Mercês e Matriz de São Luís de Tolosa, que ficaram completamente destruídas, começava um trabalho que duraria oito meses e envolveria toda a comunidade.
Recuperação
O arquiteto Adriano Carvalho, envolvido nas obras do começo ao fim, relembra dias de muito trabalho e emoção. “Era preciso limpar todos os escombros, peneirar o barro das paredes de taipa que ficaram no chão e tentar encontrar o maior número de peças possíveis, desde o forro de madeira pintado à mão, castiçais, imagens, santos, objetos de todos os tipos”, explica.
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Para isso foram armados galpões na rua lateral da igreja Matriz, onde se montou um verdadeiro arquivo de peças, que eram limpadas, catalogadas, protegidas com tecido e dispostas em prateleiras. A minuciosa catalogação envolvia informações do local onde as peças eram encontradas, além do estado em que estavam.
O trabalho envolveu uma equipe de sete restauradores, três deles moradores da própria cidade, que receberam qualificação técnica. Além disso, outros 30 operários limparam e abriram espaço para que a recuperação do patrimônio fosse possível. Uma verdadeira exposição artística acabou sendo montada para expor tudo o que se conseguia recuperar, o chamado “canteiro aberto”. A exposição acabou atraindo centenas de turistas de todo o Brasil.
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Imagens
Cerca de 17 imagens de santos foram recuperadas, a maioria pertencente à igreja Matriz. Quando os técnicos da construtora começaram os trabalhos nos primeiros dias, diversos moradores começaram a entregar imagens que eles mesmos haviam conseguido salvar das igrejas.
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Mas a maior supresa veio de um vizinho da igreja das Mercês. Adriano relata que o morador, um odontólogo, conseguiu encontrar a imagem de Nossa Senhora das Mercês, um patrimônio histórico-cultural datado da mesma época em que a igreja havia sido construída. A rara escultura de cerca de 60 centímetros, originalmente feita em barro, estava totalmente quebrada. Era preciso juntar 100 peças, que foram encontradas posteriormente, para tentar refazer a santa que dava o nome da pequenina igreja de São Luís do Paraitinga.
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O trabalho de restauração dos santos acabou atraindo moradores que pediam para os técnicos recuperar santinhos quebrados de casa, muitas vezes herdados de parentes antigos. “A gente tentava atender todo mundo, afinal, para aqueles moradores não sobraram muita coisa, além da fé e da solidariedade”, relembra o arquiteto Adriano.
Cápsula do tempo
Em meio aos escombros de uma parede da igreja Matriz, que sobrou uma parte de pé, cortada ao meio verticalmente, estava um caixa branca de madeira que atraiu a curiosidade de todos que trabalhavam no local. O objeto, denominado “cápsula do tempo”, era uma típica tradição de antigos intelectuais que guardavam recortes de jornais e fotos de determinadas épocas, como forma de preservar a memória de seu tempo para gerações futuras.
Enterrada na taipa da parede, a caixa era do intelectual da cidade Romillo Guimarães, que fez um verdadeiro diário do ano de 1927, quando a igreja passou por uma grande reforma de ampliação. Para abrir a caixa, ninguém mais que o filho do intelectual, que ainda era morador de São Luís.
Celebração de um recomeço
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Imagens recuperadas, limpeza feita, restauro de objetos e santos concluído. Depois de oito meses, chegava ao fim um trabalho que realimentava a esperança de vidas que estavam sendo refeitas. Sobravam estruturas metálicas que davam dimensão do tamanho real que as igrejas eram, além de todo um patrimônio histórico recuperado quase por inteiro.
Para celebrar o importante passo que restabelecia uma história de quase três séculos, uma missa foi celebrada em cima do piso da Matriz, protegido com areia e tábuas, embaixo da estrutura metálica. A igreja das Mercês foi reconstruída, em seguida, por outra empresa escolhida na licitação. Mas a igreja da Matriz permanece até hoje à espera de ações governamentais para ter as paredes reerguidas.
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