Preciso assumir aqui para você, caro leitor do A Redação, minha maior especialidade não é jornalismo, produção cultural ou Simpsons. Nem futebol, nem música. O que eu faço com mais propriedade é me meter em roubadas no Réveillon. De todos os tipos, em todos os níveis sociais. Da festinha na casa do amigo à festona que mobiliza a sociedade goianiense. Quando o assunto é entrar em barca na festa da virada de ano, pode contar comigo!
A mais comum de todas é que, logo na entrada, eu já consigo sujar a camisa branca. Uma vez derrubei um gole inteiro de Malbec na minha blusa. Um gole que mais parecia uma cachoeira de Piri escorrendo de cor rubra intensa pelos botões camisa abaixo. E o relógio ainda marcava 22h30. Ou seja, a coisa ainda estava no início e eu já circulando e cumprimentando todos com aquela mancha que entregava a ebriedade precoce do sujeito aqui.
O molho da comida também é um hit para sujar aquela camisa branquinha de fazer inveja ao Zé Pelintra. Seja da carne suculenta, seja o molho da comida japonesa, seja daquele salgadinho. A gotinha tem sempre o caminho certo: o ponto mais visível de sua camisa. E não adianta ir ao banheiro e tentar camuflar a mancha, ouça a voz da experiência: a coisa só vai piorar.
Outra roubada clássica de virada de ano é o som que o DJ manda. Em festas badaladas, você sai com overdose de música ruim. Começam com eletrônicos ruins, vão para o axé ruim, passam pelo sertanejo ruim e terminam no funk ruim. De cinco horas de som, você costuma aproveitar duas músicas que não odeia. Não quer dizer que você ama, mas pelo menos não sente ojeriza. Convenhamos, um péssimo percentual. Além de ir embora surdo, pois os caras acham que não é o fim do ano e sim o fim do mundo. Por isso, pensam que ninguém vai precisar de tímpanos para o restante da vida.
Uma vez, tendo ciência do meu trauma de eletrônico farofa, optei por ir para a chácara de um amigo. No hora em que começamos a cair numa música brasileira mais intensa, num sambão mais nervoso e começamos a empolgar com o clima, o dono da festa implicou de ouvir o Exile on Main Street dos Rolling Stones inteirinho. Esse é inegavelmente meu disco preferido dos caras e está presente em todas as listas do melhores álbuns da história. Contudo, deve também estar presente em todas as listas de discos mais não recomendáveis para uma festa de Réveillon. Foi só o anticlímax. Sério, ver os fogos de ouvindo Sweet Black Angel não inspira votos de um ano novo melhor.
Por fim, outra roubada imperdoável é a da bebida de origens, hum…, digamos duvidosa. Você entra no uísque que acha que é do bom, na cerveja de marca recomendável e, no dia seguinte, sua cabeça parece a de um pato morto. Todo mini barulho tem a intensidade de um show do Sepultura. Toda luz entre as persianas parece a do palco da Lady Gaga. E dá-lhe analgésico para o primeiro dia do ano…