Nádia Junqueira
A vila de São Jorge, de aproximadamente 800 habitantes recebe em julho, por conta das férias, da seca (propícia para curtir cachoeiras) e, principalmente, por conta do Encontro de Culturas, 30 mil pessoas. As ruas de terra da vila são tomadas por turistas que, nem sempre, sabem se comportar e fazer o chamado turismo sustentável, defendido pelos moradores e administração. A economia local é sustentada pelo turismo que cresce sem estrutura. Logo se vê pelo grande número de pousadas e restaurantes em contraposição ao pequeno número de farmácias, armazéns, nenhum posto de gasolina ou caixa eletrônico.
Antigamente, a economia da vila se baseava no garimpo de cristais. Por estar na entrada do Parque da Chapada dos Veadeiros, área de preservação ambiental e que atrai turistas do mundo todo, o foco mudou. Mas não como deveria. É o que reclamam a administradora da Vila de São Jorge, Aristéia Avelino (Teia) e os moradores da cidade.
Por se tratar de uma região ambiental valiosa, eles acreditam que a cidade deveria ter uma estrutura diferenciada, que se baseasse em sustentabilidade e ecoturismo. “Eu sei que sou governo. Mas aqui acabo perdendo a credibilidade, porque não há políticas públicas, de fato, mas ações guiadas por interesses de quem está no poder. É tudo de cima para baixo”, afirma Téia.
Para a administradora, os governos estadual e federal não são voltados para preservação e estruturação do turismo sustentável. “São Jorge é esquecida pelas autoridades”, diz Téia. A cidade não tem saneamento básico, calçamento, manejo adequado do lixo e asfalto.
No entanto, administradora e moradores preferem mesmo que as ruas não sejam asfaltadas. “Temos que preservar a identidade de vila. Além disso, só aceitaríamos asfaltar se fosse sustentável e estruturado para turismo”, defendeu Irineu Francisco, que mora na vila há 10 anos.
Téia conta que começaram a construir uma estação de tratamento e pararam, mas ela prefere que nem retomem. “Não sou técnica, mas esse é um tipo de obra que qualquer deslize técnico pode gerar uma tragédia ambiental. Aqui o saneamento ideal seria o individual, de fossas”, sugere.
Lixo
Irineu e Téia reclamam do comportamento do turista que chega à cidade e não tem uma postura condizente com o ambiente de preservação ambiental. As ruas são tomadas por sujeira. Além disso, mais de uma tonelada de lixo é produzida por dia sem que tenha um destino adequado. “O turista deve chegar aqui com visão de que está num ambiente em que o homem está em harmonia com ecossistema. Por exemplo, a Pedra Filosofal é um mirante lindo. Mas cheio de lixo deixado pelos turistas”, reclama Irineu. Para ele, falta uma forma de abordar esse tema com os turistas e moradores. “É necessário criar cartilhas, qualquer comunicação para desenvolver a idéia de cuidados com o lixo. E deve ser uma ação contínua e supervisionada”, sugere Irineu.
O morador e Téia reclamam que os governos não enxergam a região como de preservação, de fato. Mas para a administradora é necessário também um código de condutas e políticas de segurança pública para guiar as ações de moradores e turistas. “Vira uma terra de ninguém. As pessoas dormindo na praça, jogando lixo na rua, fazendo barulho”, reclama Téia.
Turismo
Para a administradora Téia, o turismo de São Jorge caminha para uma decadência. “Temos que receber mais gente com mais qualidade. O Centro de Atendimento ao Turista não tem nenhuma estrutura, não temos material para entregar ao turista, nem estrutura para recebê-lo”. A cozinheira Benedita do Nascimento, 67, reclama que o turismo na vila deveria ser mais contínuo e para isso deve haver mais divulgação e estrutura. “Aqui é um lugar de turista, mas eles vêm agora, fim de ano e feriados só. Nem estrada boa para recebê-los temos”, reclama. Para Téia, esse desenvolvimento só será possível com ações do governo, empresas e comunidade em conjunto.