Goiânia – Causa surpresa o maciço apoio da população estadunidense às invasões cometidas pelo governo às liberdades individuais. Pesquisas mostram que cerca de 70% dos ouvidos concordam com a prática de bisbilhotar dados pessoais pela internet dos usuários. Uma vergonha.
Os EUA deveriam ser o farol do respeito ao indivíduo. Um modelo para o mundo. Eles têm uma democracia de séculos, consolidada e paradigmática. Eles vendiam essa imagem de baluarte da defesa da privacidade. Isso foi por água abaixo. Guantánamo foi o primeiro e gigantesco passo para o descrédito. O vazamento dessa prática governamental foi a lapada final no que restava de credibilidade.
O arbítrio venceu. O pós-11 de setembro bagunçou preceitos fundamentais para a democracia estadunidense. Não vou me assustar se a CIA me mapear após esse artigo. Se bem que como não tenho relação com o mundo árabe, a não ser pela sua deliciosa gastronomia, acho que passarei batido. Se eu me chamasse Mohamed, a história poderia ser diferente.
Agora, o mais impressionante mesmo é que essa decisão do governo dos EUA repercutiu positivamente em parcela significativa da população no Brasil. As viúvas da ditadura foram só aplausos. E o que mais revolta é que quem bate palmas, normalmente, é gente que não viveu a ditadura. Gente que não sentiu o estupro às liberdades individuais que os anos de chumbo praticou. De longe, é fácil elogiar.
Está faltando clareza para entender o que de fato rolou nos porões da ditadura militar brasileira. Seja por falta de estudo, seja por opção ideológica. Ignorar as mortes, as torturas, os abusos, os exílios, a falta de liberdade geral é demais para mim. Gente que aprova invasão da privacidade na internet deve também aprovar prisão sem ordem judicial para tal ato. Deve aprovar também invasão domiciliar noturna não autorizada. Deve aprovar também execução sumária na quebrada. São todas ações que dialogam entre si quando não há respeito ao indivíduo.
O mundo tem que rejeitar com toda força possível o avanço dessa afronta dos EUA. Ao menor indício de abuso, a indignação tem que transbordar pelos poros. Cadê o posicionamento oficial da diplomacia brasileira condenando com veemência essa prática abusiva? Não dá para deixar passar batido. A reação tem que ser rápida, brutal e intolerante perante o autoritarismo.
Depois, pode ser tarde demais.