Goiânia – Passada a festa dominical da democracia, teremos que aprender a viver uma irremediável segunda-feira. A má notícia é que estamos diante de uma crise aguda da democracia-representativa, o sistema da solução de conflitos pelo voto universal e direto.
A boa notícia é que não de trata de mais uma crise local, movida pela baixa-estima do brasileiro médio, mas de uma queda geral na crença de que o voto da maioria é suficiente para equilibrar as emoções e relações humanas.
Para quem – como eu mesmo – está convencido de qualquer resultado destas eleições para presidente no Brasil será uma catástrofe, é preciso respirar fundo e olhar para o resto do mundo: contando o Brexit, na Inglaterra, berço da revolução industrial moderna, aos Estados Unidos do Norte, seu produto mais bem-acabado, com a eleição de Duck Donald Trump, o patinho feio e zangado filho torto de Disney.
O drama do agravamento de impasses, ao invés de um caminho para a negociação entre as partes como resultado de eleições, parece se alastrar como a própria internet, distribuindo-se sem fronteiras desde a França sempre revolucionária à Suécia amante do sossego e da harmonia de classes.
A parte ruim da encrenca em que nos metemos é evidenciar a fragilidade do sistema representativo. Votar é pouco mais que uma massagem no ego da democracia, que segue dolorida e trôpega.
A parte boa é que vamos ser obrigados a aprender, como as economias mais organizadas já vinham fazendo, a viver com menos governo.
Dizer que esta é a pior crise nacional é desconhecer todas as anteriores e até que a próxima sempre pode ser pior. Ademais, do ponto de vista político-eleitoral, que tanto assusta, não estamos muito diferentes, por exemplo, de 1989. Aliás, a polarização entre o PT e um arrivista de direita é idêntica. Não falta nem o massacre ao meio-termo que poderia ser apaziguador, com o Mário Covas do passado sendo revivido agora por Geraldo Alckmin. Sobrevivemos antes, vamos sobreviver de novo.
Verdade que a eleição de Collor terminou em impeachment. O tempo que passou, neste caso, conta muito a nosso favor: 1989 foi mais frustrante porque era a retomada das eleições diretas para presidente, depois de quase três décadas. Dois impeachments e muitas provações passadas, as instituições, Judiciário e Congresso inclusos, já deram mostras abundantes de que não há nenhuma fragilidade no pacto democrático brasileiro.
O mundo mudou. E ainda que a globalização tenha trazido junto esta fragilização aparente do sistema representativo, não faz mais sentido imaginar os soviéticos e os americanos brincando de financiar golpes autocráticos pelo mundo. Nem civil, nem militar. Até porque hoje as grandes corporações industriais e tecnológicas têm mais poder que governos. O grande capital é tão chinês e russo quanto europeu e americano. Há mais negócios do que pátrias neste admirável mundo novo.
O fato é que o vencedor desta eleição presidencial será um populista, no sentido de, à direita ou à esquerda, tentar provar que entregará o impossível: um caminho para a reconstrução nacional, para governar para a maioria, e não para grupos ou corporações.
Quem inventou que éramos nós contra eles, agora não sabe mais quem são eles e o que será de nós. Não importa, porque os brasileiros estão irrevogavelmente cindidos. Não haverá governo possível, porque não há mais consenso possível. A única saída será aprendermos a nos virar sem governo.
Não se trata de Estado mínimo, ou o máximo de planejamento estatal para gerir a economia e a Nação. O governo, qualquer que seja, continuará gastando muito para prover, mal, Segurança Pública, Educação básica, um Sistema de Saúde precário e caro, basicamente assistencialista. Continuará interferindo pontualmente onde não deveria mexer na economia, e acumulando déficits que alimentam os juros de uma dívida monstruosa.
Além disto, gastará cada vez mais em pagar salários de uma máquina burocrática com bolsões de privilégios e uma ineficiência orgulhosamente autoalimentada. A novidade é que os impostos continuarão subindo, também para fazer frente a uma previdência social irrefreável.
Enfim, estamos prontos para a Democracia moderna. Façamos a festa no domingo, para estarmos alegres e dispostos na segunda-feira, que promete ser, senão eterna, bastante duradoura.
Rogério Lucas é jornalista