Vou resumir meu problema logo de cara para você entender o que quero dizer nesse artigo: arrebentei os ligamentos do joelho direito jogando bola com meus primos no almoço de família da Páscoa. Por conta disso, me submeti a uma cirurgia de reconstrução dos mesmos no início dessa semana. Agora, são 15 dias de molho dentro de casa, com as pernas para o alto, para uma recuperação a contento. Meus trajetos de locomoção são mínimos. Da cama para a sala, da sala para o banheiro, algumas passadas ocasionais pela cozinha e volto para a cama no quarto. Você aí, plenamente saudável, que nunca se machucou ou teve contato íntimo com algum portador de deficiência, não tem ideia do quanto é difícil circular dentro da própria casa com algum problema de mobilidade.
É um transtorno enorme entrar no banheiro de muletas, com as portas estreitas como são. Tomar banho naquele cubículo, nem me fale, um verdadeiro martírio. Preciso ficar sentado e com a perna esticada fora do jato do chuveiro para que o curativo não molhe. Meu amigo, me explique como que entro naquele espaço reduzidíssimo com dois tamboretes que ofereçam o mínimo de segurança para alguém recém operado? Impossível. E vale lembrar que meu biotipo corpulento de 1,90 metro de altura também não colabora. Agora, imagine se eu estivesse fazendo uso de cadeira de rodas? Ou fosse cego? Seria inconcebível morar onde moro.
Tive outra experiência sofrível nesse sentido. Minha sogra quebrou a bacia em seu trabalho e ficou alguns meses na minha casa para a recuperação. A canseira para tirá-la da maca e levá-la ao banheiro era gigantesca. Meu atual problema só reiterou aquilo que eu já sabia: sequer cogitamos a hipótese de que podemos ter limitações sérias de mobilidade.
Resido em um apartamento de idade média, que tem 20 anos de construção. Eu até poderia colocar a desculpa da falta de acessibilidade por ele ser mais antigo e, no período da sua obra, as pessoas ainda não terem se atentado a essas questões. Bobagem. Não é por aí. Nas construções mais novas, também percebo que não existe a menor preocupação em facilitar a locomoção para quem sofre de limitações. Isso só mostra o quanto nossa sociedade é burra, excludente e sem perspectiva de futuro.
Li isso uma vez em um texto de um jornalista que admiro muito, o André Forastieri, e a sentença nunca mais saiu de minha cabeça: se tudo der certo, todos nós seremos deficientes físicos. Só não se torna deficiente quem morre jovem. Fora os suicidas, não creio que essa seja a ambição de ninguém. Logo, é de deixar pasmo a falta de sensibilidade que temos com algo que todos vamos enfrentar. Quando formos velhinhos, teremos nossa locomoção hiper limitada, precisaremos de bengala, andador ou cadeira de rodas. Iremos perder nossa visão e nossa audição.
O problema é que somos tão tapados que não conseguimos pensar nem no depois de amanhã. Estúpidos. Quando vamos comprar nossos apartamentos, não percebemos se ele permite um transitar tranquilo se viermos a nos machucar. Quando vamos projetar nossas casas, colocamos um monte de escadas engraçadas que serão impossíveis de transpor sendo cadeirantes. Já disse uma vez, mas nunca é demais repetir: como somos estúpidos.