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Sensibilidade em poucos traços

30.08.2013 - 16:28:22
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Voltei a ler gibis há poucos anos. Tive uma relação intensa com quadrinhos na infância, abandonei por completo na adolescência e início da idade adulta, voltei para a fissura pouco tempo atrás.

O interesse reapareceu primeiro por conta dos desenhos da contracultura sessentista, em especial Robert Crumb e sua turma. Esse contato me fez buscar mais e mais gibis autorais, que é minha escola preferida.

Uns meses atrás, folheando algumas obras em uma livraria de Goiânia, topei com Lucille. As cores da capa tendem ao amarelo-bege-marrom, inspiram algo mais reflexivo, introspectivo. O livro é grosso, embora sem numeração, estimo mais de 500 páginas.

Por fim, já tinha lido outras publicações da editora Barba Negra e todas me surpreenderam de forma positiva. Esse conjunto de fatores me fez gastar alguns minutos naquela observação, ponderação do valor (R$ 44,90) e dúvida se compensava o risco. Coloquei na cestinha.

Foi uma decisão correta, pois o trabalho do francês Ludovic Debeurme é de uma sensibilidade ímpar. De traços simples, parecendo até mesmo que uma criança desenhou, ele amarra o leitor nas mais de duas horas que o grosso livro leva para ser consumido.

E não tente ler esse gibi nos minutos espremidos que temos entre as atividades: esse é o tipo de leitura que precisamos fazer do começo ao fim. É difícil largar a trama pela metade. Abra uma garrafa de vinho e vá adiante!

Debeurme conta a história de dois jovens de uma cidade do interior da França que têm suas vidas cruzadas na adolescência. Cada um com seus gigantescos demônios para enfrentar, vencer e, se possível, sobreviver. Lucille é uma garota que enfrenta a barra da anorexia depois de sofrer bullying na infância por ser gordinha, nada obesa, só um pouquinho acima do peso.

Quando ela está se recuperando de uma internação, encontra Arthur. Ele é um garoto de família pobre, porém com pais esforçados que tentam passar honra e moral aos filhos. Naturalmente, com seus problemas. O pai, alcoolista; a mãe, atarefadíssima. Esse encontro muda a vida dos dois para sempre, como todo encontro sentimental na adolescência costuma ser.

A forma que a história se desenrola é envolvente, com um roteiro que guarda todo tipo de surpresa até a última página. Se você gosta de quadrinhos autorais, pode cair dentro de Lucille sem medo de ser feliz. Se não se interessa por gibis, a chance de você gostar também é grande, pois o forte aqui é a história, o enredo, a força que carrega cada personagem – ou seja, está mais para a literatura.

Agora, se você gosta de sangue e heróis, realmente não sei se compensa. A emoção aqui não vem de golpes e poderes vindos sabe-se lá de onde, vem da coisa mais difícil que o ser humano encara diariamente: a vida.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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