Goiânia – O domingo de sol no parque prometia um espetáculo para os olhos. Céu de azul intenso e aquela brisa morna que não deixa dúvidas de que é mesmo verão. Então os dois chegaram. Pai e filho, juntos. O menino estava no colo do pai, radiante com os patos do lago e com a algazarra feita pelas crianças que corriam pela grama.
O homem desce o garoto do colo com cuidado. Vejo que a criança tem um problema motor nas pernas, pois anda com dificuldade, apoiada por um aparelho e pelos braços fortes do pai. O adulto se afasta um pouco, olha para o pequeno e diz: “Vem, filho!”. Hesitante, o garoto fica com medo de cair. Mas logo toma coragem e vai.
Os passos são curtos, lentos, mas sempre constantes e acompanhados pelo olhar terno do pai. Pouco a pouco, o garoto vence a distância que os separa e cumpre o desafio. “Muito bem, campeão! Viu só como você consegue?!”, vibra o pai. Entusiasmado, o garoto ri alto e ensaia outra caminhada solo.
Um mulher que estava ao meu lado também presencia a cena. Diz que sente muita pena do garoto, pois ele nunca será uma criança “normal”. Ao contrário do filho dela, nunca saberá como é marcar um gol de placa, como é ser o primeiro do judô. Nunca saberá o que é ser paquerado pelas garotas da escola.
“Não sei porque Deus deixa crianças assim nascerem. É sofrimento demais. Eu acho que enlouqueceria se tivesse um filho com problema”, sentencia ela.
Me afasto do local com uma enorme pena. Não garoto, nem do pai dele, mas da mulher. Pena desse jeito de amar que recusa a vida como ela é e só aceita idealizações. Se o mundo não corresponde às suas expectativas, transforma-se em fonte de amargura, rancor e tristeza permanente.
Sim, ter um filho com necessidades especiais é uma experiência desafiadora. As regras e receitas precisam ser reinventadas, nem sempre se pode contar com a compreensão alheia, medo e coragem se alternam numa roda-vida sem fim em busca de respostas e soluções para a dor, as limitações, o preconceito.
É, porém, uma experiência única de amor e fortalecimento. Não se pode fingir que a necessidade especial não está presente. Seja em forma de uma limitação motora, neurológica, emocional ou de qualquer outra ordem, não se pode negá-la. E a impossibilidade da negação mina a hipocrisia, torna a vida mais verdadeira.
A cada obstáculo transposto pela criança, por menor que seja, ela e os pais sentem o coração se encher de esperança de alegria. Nenhum dia é igual ao outro, porque todos eles são de superação e de força. A cada derrota, o choro, a decepção e, em seguida, a necessidade de seguir em frente, que nos empurra rumo à vitória.
Ao estender a mão para um filho com necessidades especiais, um pai estende também o seu afeto em forma humana. E então, os dedos de pai e filho se entrelaçam de maneira tão forte, que fica difícil distinguir quem é mesmo que precisa de quem, qual dos dois é mais capaz de dar e de receber amor.
Ao aceitarem sem subterfúgios nem eufemismos a condição do filho com necessidades especiais, os pais também aceitam a possibilidade do encontro afetivo verdadeiro, do amadurecimento e da generosidade. Aceitam o amor possível, vindo de um filho possível, real, que tem sua própria história.
Mas não são todos os filhos reais e com suas próprias histórias? A missão de educar bem não é desafiadora para todos os pais? Em vários momentos de suas vidas, os adultos não entram em pânico por não saberem que resposta dar aos dilemas apresentados por seus pequenos? Ao fim e ao cabo, todos os filhos não são especialmente únicos?
Lembro-me de um artigo que a querida colega de profissão, a jornalista Carla Oliveira, escreveu certa vez. O título era: “Meu filho é especial. O seu não?”.
Em poucas palavras, ela disse tudo. As necessidades de afeto, cuidado e acompanhamento de uma criança são sempre especiais. Quem acredita ter um filho “comum”, certamente ainda não se deu conta da joia rara que possui.