Com fala rápida, quase difícil de acompanhar, e sotaque pernambucano forte, Siba atendeu o celular um pouco surpreso, já que não havia marcado a entrevista para aquele horário. Na verdade, a conversa tinha sido agendada para dois dias antes, mas devido a alguns incidentes, a reportagem do AR só conseguiu falar com o músico na manhã desta quinta-feira (1º/12). Apesar da surpresa, o compositor que carrega o abençoado sobrenome Veloso aceitou de bom grado fazer a entrevista naquela hora. Ele só precisava de 15 minutinhos para chegar em casa – estava na rua, no meio do caos de São Paulo, onde mora atualmente. Nascido em Recife, Siba sairá da capital paulistana no próximo sábado (3) para trazer a Goiânia o melhor de sua música universal, como ele mesmo a classifica. O pernambucano é uma das atrações do segundo dia do Goiânia Noise, que acontece no próximo fim de semana, no Sol Music Hall.
Com dois discos “solo” no currículo e um por vir, anunciado para janeiro de 2012, Siba já é conhecido de outros carnavais, mais especificamente de uma folia chamada Mestre Ambrósio, banda que surgiu no movimento manguebeat, criada em 1992. No grupo, o guitarrista e rabequista trilhou uma carreira respeitável, por longos 12 anos. Depois, quis explorar novas oportunidades. Voltou para Recife – morava então em São Paulo – e se juntou a um grupo de senhores tradicionais de Nazaré da Mata, uma pequena cidade de Pernambuco, vizinha da capital. Surgiu assim o Fuloresta, com quem o musicista gravou os dois álbuns: “Fuloresta do Samba” e, o último, de 2007, “Toda vez que eu dou um passo, o mundo sai do lugar”, que contou com grandes parceiros, como Céu, Fernando Catatau, Marcelo Pretto, Zé Galdino e Lúcio Maia. Esse segundo trabalho rendeu ao recifense um DVD, lançado na mesma época pelo Instituto Itaú Cultural.
Não será, contudo, o repertório do disco de 2007 que pintará por aqui. Para o show em Goiânia, Siba vem com novos companheiros de palco – sem os Fuloresta -, com novas músicas e um novo projeto. “A formação que vai comigo é de um trabalho novo, que deve ser lançado em janeiro e se chama ‘Avante’. Não tem nada a ver com a banda do disco anterior. É completamente diferente. Essa agora é um quarteto, composto por bateria, guitarra, tuba e vibrafone”, contou o músico durante a entrevista, garantindo que as faixas desse novo disco são bem mais rock and roll. Representante da boa música brasileira, o recifense também faz sucesso no exterior e já se apresentou por diversos países, como França, Espanha, Portugal, Holanda, Alemanha, Áustria, Suíça e Bélgica. Mas, neste fim de semana, é a vez de Goiânia ser agraciada pelo ritmo do Mestre que não é mais Ambrósio.
A Redação – Você cresceu circulando entre a cidade cosmopolita e as origens rurais de sua família. Isso influenciou no seu trabalho?
Siba – Totalmente. Em primeiro lugar, porque você cresce com a perspectiva de que o mundo não existe de um jeito só. Em segundo lugar, do ponto de vista musical, porque em Recife existia de tudo um pouco, vários ritmos, vários estilos musicais. Já no meio rural, de onde meus pais vieram, o que predominava musicalmente era completamente diferente. Era a música do agreste, do sertão nordestino mesmo. Era Luiz Gonzaga.
Seu último disco conta com grandes parceiros, como Céu, Fernando Catatau, Lúcio Maia e vários outros. Como é poder trabalhar com tantos nomes respeitados assim?
Essa galera, antes de tudo, é muito amiga. Mantemos uma relação de respeito mútuo. Eles fazem comentários sobre meu trabalho e eu comento o trabalho deles. Eles me inspiram ao mesmo tempo que eu também influencio no trabalho deles. É uma fertilização mútua.
O título desse disco é “Toda vez que eu dou um passo, o mundo sai do lugar”. Você quis dizer algo a mais com isso?
Quis passar a ideia de movimento constante. Nada está parado.
Qual a formação da banda que vem com você para Goiânia?
A formação que vai comigo é de um trabalho novo, que deve ser lançado em janeiro e se chama “Avante”. Não tem nada a ver com a banda do disco anterior. É completamente diferente. A começar pela quantidade de pessoas. Essa agora é um quarteto, composto por bateria, guitarra, tuba e vibrafone. O “Avante” é um trabalho muito mais elétrico e menos específico, como o anterior, que focou na Zona da Mata. Esse agora tem uma pegada muito de rock, é mais diversificado. A banda também tem essa bagagem diversificada.
Você gosta de participar de festivais como o Goiânia Noise ou prefere fazer shows sozinho?
Gosto muito de festivais, porque é um momento de intercâmbio. A gente ouve muita coisa, vê companheiros tocando… É muito legal.
Você tem feito muitos shows no exterior. Como o público recebe sua música lá?
Eu venho tocando em um circuito muito privilegiado lá fora, para um público acostumado com músicas que saem do curral da música pop. Minha música é muito centrada no ritmo, na melodia. É uma música universal, então acaba que o idioma não atrapalha. E tive a oportunidade de mostrar isso para pessoas que gostam de coisas novas, diferentes.
Algum país específico te agradou mais?
O Japão. Meu sonho é voltar para o Japão.
Para você, qual a diferença entre tocar lá fora e tocar no Brasil?
A língua. É um desafio correr esse risco de não conseguir fazer as pessoas entenderem a mensagem que eu estou passando. Dá um frio na barriga, e isso, para um artista, é ótimo.
Em 2002, depois de 7 anos morando em São Paulo, você resolveu voltar para Recife e hoje você está novamente em São Paulo. Por quê?
A vida da gente é assim mesmo. Cada momento é único. Antes de me mudar, eu queria muito sair de Recife e explorar outros horizontes. Fui para São Paulo porque eu gosto muito da cidade. Tudo o que eu sei de música hoje eu devo a São Paulo, que me recebeu super bem. Ao mesmo tempo, eu quis também trabalhar a questão das raízes, dos ritmos de Recife, e acabei voltando. Depois de algum tempo, tive a sensação de que poderia morar em qualquer lugar e escolhi São Paulo mais uma vez, porque eu sinceramente acho que é a melhor cidade do mundo.
Sente saudade da época do Mestre Ambrósio?
Não. Não sou muito de nostalgia. Foram 12 anos com o Mestre Ambrósio. Acho que a banda cumpriu sua missão. Rodamos o mundo inteiro e passamos uma mensagem para o público. Fizemos o que tínhamos que fazer. Não tenho saudades.
Está ansioso para vir para Goiânia?
Estou muito. Adoro a cidade. Queria ter ido antes com o Fuloresta, mas não deu. Nem sempre era possível, porque a banda era muito grande. Mas agora estou indo para participar desse festival que é tão importante.
Estamos ansiosos.
Tô chegando!