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Sobra dinheiro, falta berço

18.06.2012 - 12:56:02
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Poucas coisas são capazes de me tirar do sério. Uma delas é a falta de educação alheia. Não sei se é coincidência ou não, mas ultimamente o negócio anda mais feio do que nunca. O que parece não faltar é gente abusada, que não tem a menor ideia de onde termina o seu direito e começa o do outro, que ignora leis e regras.
 
E não pense que estou falando das pessoas desfavorecidas financeiramente, que não tiveram acesso nem ao ensino básico. Refiro-me aos abastados, às chamadas classes A e B, que desfilam carrões, ostentam smartphones e tablets de última geração, usam grifes caríssimas e moram em condomínios de luxo.
 
No sábado fui a um show e um desses figurões protagonizou um papelão. Pulando feito um alucinado, parecia ignorar que além dele havia mais gente na 
plateia. Deu uma cotovelada tão forte na amiga que estava comigo, que a fez gritar de dor. Nem isso o deteve. Ele só parou o “espetáculo” quando um cara ameaçou espancá-lo.
 
No dia seguinte, foi a vez de passar raiva no supermercado. Minha mãe, com 64 anos, estava na fila de idosos do Pão de Açúcar, com o carrinho lotado de compras. Eis que um mauricinho chega na maior de cara de pau e, com seu carrinho quase vazio, empurra o da minha mãe e fura, descaradamente, a fila. 
 
Recentemente, fui a um restaurante (que não era nada barato) com uma amiga. Como estávamos apressadas para ir ao banheiro lavar as mãos, deixamos nossas bolsas em cima da mesa. Quando voltamos, as bolsas estavam no chão e havia um casal ocupando o lugar. Ambos fizeram cara de paisagem e não arredaram pé.
 
Vá a uma peça de teatro ou apresentação musical em teatro e você verá a mesma falta de respeito. É um tal de deixar o celular ligado e de conversar sem parar durante o espetáculo, que dá nos nervos. Se a ida for ao cinema, o suplício é elevado à nona potência, porque os toques de telefone e as conversas não cessam um minuto.
 
Outra cena comum é fazerem a minha casa de boate. O sujeito para o carrão no semáforo em frente ao meu prédio e pensa que Goiânia inteira quer tchu e tcha ou vai tirar o pé do chão, com aquela música de som automotivo no último volume. Isso quando não estaciona o possante na calçada e deixa o sonzão ligado altas horas.  
 
Fila de banco não é diferente. Tem sempre um engraçadinho que ignora que as cadeiras são prioridade de idosos, gestantes, pessoas com crianças de colo ou com necessidades especiais, e se refestela no lugar, fingindo que não sabe disso. Ou então que resolve dar uma de “distraído” e fura a fila sem cerimônia.
 
Em recepções de casamento a coisa também é constrangedora. Recebi numa delas um pedaço de pano e fui perguntar a razão. A cerimonialista me explicou que, como os convidados faziam “marmitas” com os bombons da mesa usando os guardanapos de linho, eles decidiram distribuir os lenços, para reduzir o prejuízo do buffet. 
 
As lojas caras de roupas femininas ou os salões chiquérrimos também são locais interessantes para se ver cenas deprimentes. Deixe essas mulheres esperando um segundo a mais do que elas gostariam e você verá um ataque de histeria e grosseria, ouvirá xingamentos que nem na cracolândia se escutaria igual. 
 
Nelson Gonçalves dizia que dinheiro compra tudo, até amor sincero. Verdade em parte, porque dinheiro não compra berço. Conheço gente extremamente humilde, que vive com grande dificuldade, mas é de uma elegância ímpar. Não invade o espaço do outro, não pega o que não é seu, não obriga as pessoas a fazerem o que não querem.
 
Por outro lado, vejo gente muito bem de vida, mas que não tem um pingo de classe. Gente que precisa se afirmar o tempo inteiro, para o mundo todo. Pessoas que acham que o universo tem uma dívida de gratidão com elas, pelo simples fato delas existirem. Gente que se acha merecedora de tudo, no tempo e na hora que deseja.
 
São pessoas que sacam seus cartões de crédito poderosíssimos para pagar os produtos que querem comprar, mas se esquecem que algumas coisas não estão à venda. Uma delas é a educação, a elegância. Elegância não se encontra em cursos de etiqueta, porque não é decorada. É internalizada.
 
Ser elegante é perceber, de fato, o outro, seus direitos, sua situação, suas limitações. E respeitar tudo isso, sem achar que se está fazendo um favor, que se está sendo “caridoso”. Compreender que o respeito é a única forma de impedirmos a barbárie, de não transformarmos nossa sociedade numa jaula de leões assassinos. 
 
Nunca na história desse País as pessoas tiveram tanto acesso ao crédito. Nunca se comprou tanto, se esbanjou tanto. Por outro lado, nunca houve tanta grosseria, tanta falta de respeito. Vivemos uma epidemia de falta de educação generalizada. Infelizmente, sobra dinheiro e falta berço.  
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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